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Sobre ir, ver e descobrir

por Lívia Aguiar

Fotos: Lívia Aguiar

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Sabe aqueles eventos que a gente vai enganado? Acha que é uma coisa e aí é outra? Pois é, o Cinema no Rio é bem assim.

Aparentemente é um projeto fofinho, que leva cinema para cidades na margem do São Francisco. Os organizadores viajam de barco e a parafernália técnica (projetor de cinema, tela inflável, gerador de energia e outros pesos) vai por terra. Em cada parada, um cinema é montado ao ar livre e a população tem a oportunidade de assistir, de graça, "sucessos do cinema nacional", como disse o carro de som que divulgava o projeto em Malhada, na divisa de Bahia com Minas Gerais. Em Carinhanha, cidade baiana de 30 mil habitantes, o mesmo veículo anunciava que "a pipoca é por nossa conta".


A parafernália e a cidade.

Fui intimada pelo Pílula a cobrir os últimos dias de evento nessas duas cidadezinhas, na terra de Caetano Veloso e Pitty. E aí descobri meu engano. O Cinema no Rio não é uma cruzada promovedora da sétima arte em comunidades ribeirinhas. É um projeto de troca: o cinema nacional pela cultura local. Em primeiro lugar, antes dos curtas e do longa-metragem exibidos, um minidocumentário sobre a própria cidade surpreende os moradores. Estão ali, em uma Tela de Cinema, o médico da cidade, a filha de Dona Lia de Zé, o dono do bar ali na esquina. É gritaria, sorrisos, exclamações de reconhecimento e zoação ao ver o menino de 12 anos (provavelmente conhecido por todos) passando esmalte nas unhas do pé na calçada de casa. "O grande trunfo é as pessoas se verem na tela", explica Fernando Lima, documentarista do projeto. O filme é feito apenas um mês antes do “No rio” levantar âncora. Outra equipe também viaja com o barco Luminar, registrando a cidade novamente, desta vez transformada pelo cinema.

Ao longo de um mês e 20 localidades, a quinta edição do projeto surgido em 2004 exibiu 10 curtas-metragens - seis deles de animação - e quatro longas, todos nacionais: “Mutum”, “Pequenas Histórias”, “Abril Despedaçado” e “Tapete Vermelho”. O projeto nunca subiu o rio São Francisco de cabo a rabo, mas em 2009, pela primeira vez, cidades da nascente do Velho Chico foram visitadas (o barco não chegou até lá, foi todo mundo por terra). São Roque de Minas, incrustada na Serra da Canastra, foi o primeiro destino no dia 1º de outubro. O barco foi alcançado pela equipe em Pirapora, no dia 8, e só parou de descer o rio em Angico, terceiro ponto da rota na Bahia, no domingo dia 25. O projeto já passou por locais diferentes do São Francisco em outras edições e apenas o trecho entre Xique-Xique e Babrobó ainda não viu inflar a tela de dez metros de largura às suas margens.

A bordo do barco Luminar, uma diversificada fauna de profissionais compõe o esqueleto do projeto. O fotógrafo André Fossati dorme em uma barraca no teto do barco para não perder nem um minuto da luz matutina. O antropólogo Fabiano Bechelany conversa com os habitantes de cada cidade visitada para entender seus modos de vida. Já a cozinheira Maria da Glória Albano recolhe receitas tradicionais dos barranqueiros (nome dado a quem mora nas margens do São Francisco) para um futuro livro. Três educadoras organizam a oficina de introdução ao cinema para crianças e confeccionam com elas seus primeiros planos-sequência em forma de flipbook. Rafael Soares, além de técnico de áudio da equipe de vídeo, também fica responsável por orientar pessoas da cidade na formação de cineclubes. Quim procura fotos antigas entre os moradores para digitalizá-las. Por fim, Juliana Deodoro é a assessora de imprensa e os sete tripulantes do Luminar, capitaneados por Lúcio Barreto, cozinham, limpam, navegam, ouvem rádio e contam casos. Devo estar me esquecendo de mais gente.


O Luminar.

Na equipe "de terra", o projecionista Wagner Roberto, que “já montou muito cinema nessa vida” e deve ter visto todos os filmes do mundo (ok, exagero, confesso) foi quem mais me chamou a atenção. Com ele, ainda há responsáveis pela produção e montagem do trailer/cabine de projeção, plateia e tela - esta última, uma inovação tecnológica feita daquele material de brinquedos infláveis de criança, cuja leveza e volume possibilitaram a criação do cinema itinerante pelo idealizador (e maluco) Inácio Neves. Foi em 1994, através do rádio, que ele começou a mexer com cinema. Um dos donos da extinta Geraes FM, projetava filmes de graça por Belo Horizonte para promover a rádio. Depois que saiu da Geraes, continuou com a sétima arte e hoje coordena dois projetos, o Cinema no Rio e o Cinema nos Trilhos, que percorre localidades próximas às ferrovias desde 2005 - uma viagem nos mesmos moldes do Cinema no Rio, só que menos molhada. Ah é, ele viaja no barco também. Mas continuo me esquecendo de mais gente...

Ah, tem as pessoas em Belo Horizonte, que resolvem de longe os pepinos. E tem mais...


A magia: Matheus Nachtergaele vai aonde o povo está.

Tem cada um dos rostos que vêem, pela primeira vez, um filme em película. Que se identificam na tela. Que riem, choram, comentam com o colega do lado. Que tiram a cadeira da sala e levam pra fora de casa pra assistir aos filmes. Tem quem viaja até onde vai rolar uma sessão. Quem está acostumado a ir dormir 18h e fica até o fim dos créditos do longa-metragem. E quem vê tudo debaixo de tormenta com guarda-chuva aberto e espera pacientemente a tela reinflar depois de problemas técnicos.

E tem a gente, né? Do lado de cá, que ouve contar sobre tudo isso e vai ao shopping ver o último do Tarantino, achando tudo complicado e difícil demais.

Amanhã: Malhada. (Não é uma vaquinha)

O Pílula Pop viajou a convite do projeto Cinema no Rio 2009.

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