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Segue o seco

Malhada, Bahia, 23 de outubro de 2009

por Lívia Aguiar

Fotos: Lívia Aguiar

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"- Com licença, onde eu pego a estrada pra Malhada?

- Mas aqui é Malhada!"

Depois de 22 horas de ônibus, com direito a estradas erradas, mudanças de rota e 200 km percorridos além do necessário, cheguei sonolenta a uma cidade acordada. É estranho falar "acordada", mas é a pura verdade: plena sexta-feira às 5h30 da manhã e dois times completos de handebol feminino estão na quadra poliesportiva, já suados pelo exercício. Na praça, feirantes, carros, animais e crianças transitam pra cima e pra baixo.

Malhada, cidade de 20 mil habitantes na Bahia - quase Minas Gerais - bem na beira do São Francisco, acorda cedo, tentando escapar do sol abrasante do meio-dia. É a segunda vez que o Cinema no Rio passa por ali com sua tela inflável. “Foi em 2006 que eles vieram aqui a primeira vez. Eu lembro”, diz Daniel de uma “experiência inesquecível”. Ele tinha apenas 6 anos.


Flip.

O dia foi movimentado na praça à beira do Chico. A correria da equipe de montagem do Cinema no Rio começou às 15h, quando o calor começou a diminuir. No mesmo horário, uma multidão de crianças apareceu para a Oficina de Cinema oferecida pelo projeto. Estava tão cheio que não deu pra explicar nem mostrar muita coisa. As monitoras distribuíam os bloquinhos de papel para fazer um flip-book ou o kit elástico-papel para o traumatópio (o nome é complicado, mas a brincadeira é simples) e explicavam rapidamente como “brincar de cinema”. Edelvane é a mais espevitada das crianças: não para de falar, dá palpite no trabalho de todos os colegas e toma a câmera da minha mão para ser “jornalista também”.

O dia prometia uma chuva no fim da tarde. O calor persistia, mas os trovões já riscavam o céu e preocupavam a equipe do Cinema no Rio. Os malhadenses, no entanto, esperavam ansiosamente pela primeira chuva do ano. A região é marcada pelas enchentes e secas. Localizada entre três lagoas marginais e o São Francisco, deveria ser inundada todos os anos, não fossem os problemas ambientais. A última cheia grande foi em 1991 e derrubou boa parte da centenária casa de Webister Viana. Hoje só resta o muro e, para dentro dele, uma construção moderna de alvenaria. Mesmo trazendo problemas, Webister comemora chuvas fortes e torce pela enchente. “A chuva é sempre boa. Pode molhar tudo, mas depois recompensa com fertilidade da terra. O problema mesmo é a seca”. Cidades próximas a Malhada, mais afastadas das margens do Velho Chico, já estão racionando água.

Inflada a tela e organizadas as cadeiras, mais de 400 pessoas apareceram para assistir aos filmes. As crianças eram maioria e não paravam quietas, brincando de sombra-chinesa com a luz do projetor. O silêncio se fez quando o projeto foi anunciado no microfone, mas a gritaria que se seguiu quando o videodocumentário sobre Malhada passou na tela foi ensurdecedor. Os anônimos eram astros de cinema.

O primeiro curta era “A Moça que Dançou Depois de Morta”, baseado em um conto de cordel e todo animado com gravuras. A fila da pipoca era interminável e silenciosa, atenta ao filme. O temporal deixou de ser promessa e desabou pouco depois. Os habitantes sorriram, abriram seus guarda-chuvas e tentaram continuar assistindo ao curta “Canoa Veloz”, seguido da animação fofinha “O Saci” e do curta cômico “Negócio Fechado”.


Choveu, choveu.

Aí a chuva apertou mais. A sombrinha já não era suficiente. E fazia frio. Muitos foram para suas casas, outros se abrigaram na tenda do carrinho de pipoca, nas marquises das lojas ao redor da praça e debaixo de árvores. O longa-metragem “Mutum”, meio difícil de acompanhar nessas condições climáticas, conseguiu segurar cerca de 70 pessoas molhadas, com frio, mas felizes. Edelvane estava lá, uma bola de energia, pulando de marquise em marquise. Será que essa vai ser uma das histórias que vai contar aos seus netos?

Amanhã: Carinhanha (Não é uma música do Genival Lacerda)

O Pílula Pop viajou a convite do projeto Cinema no Rio 2009.

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