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A gente não tem que conhecer pra gostar. O amor vem depois.

Carinhanha, Bahia, 24 de outubro de 2009

por Lívia Aguiar

Fotos: Lívia Aguiar

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Carinhanha, Carinhana, Cariranha, Carinh... Carinhanha. Eita nome difícil de pronunciar...

Chegamos de barco, no dia seguinte à sessão em Malhada. Em margens opostas do São Francisco, as duas cidades são muito próximas, mas muito diferentes. Carinhanha é mais rica, não sofre com as enchentes e tem 10 mil habitantes a mais que Malhada. Porém me pareceu vazia, cansada. Ninguém veio ver o barco quando aportamos no cais. Não havia crianças nadando no rio. Onde estariam todos? “Aqui é terra de jagunço, é uma cidade muito perigosa”, conta Lúcio Barreto, capitão do barco Luminar. Estremeço. Será que presenciaria uma luta digna das páginas de um cordel?


Cinema no rio: quase a escadaria de Odessa de Eisenstein.

“Quem não era jagunço não era homem”, explica Honorato Ribeiro, historiador da cidade. É uma terra perigosa, mas também cheia de afeto. Ele sente saudades do tempo do lampião, das brincadeiras da rua, da “alegria verdadeira”. Como quase todo senhor de idade avançada, o ex-professor é só nostalgia - e faz dela seu motor. É autor de diversos livros que contam a história de Carinhanha, além de poemas, prosas, cordéis e do hino da cidade.

Entre ruas com pavimento quebrado (a cidade estava em obras para colocação de rede de esgoto), passo por muitas casas antigas. “Aqui era uma padaria”, explica a moradora de um casarão do começo do século XX, “meu marido comprou e fez as paredes de dentro”. Em outro, a música eletrônica vazava pelas janelas feitas na década de 1950: uma academia de ginástica com aparelhos modernos no amplo salão de pé direito duplo.

O passeio não me leva muito longe, o calor impede até o pensamento. Cai a tarde e os trovões que preocupavam a equipe no dia anterior reaparecem.

19h: público começa a chegar e vai se avolumando à medida que os curtas passam pela tela. O videodocumentário sobre Carinhanha é acompanhado em silêncio, com atenção. Quando o casal doutor Heber Pereira e dona Valdete Moacyr aparece, me lembro da visita que fiz a casa deles, pela manhã. “Eu vi você passando ali na rua e fiquei com vontade de te dar uma flor”, aproxima-se a senhora, com uma flor de bugari nas mãos. Doutor Heber está quase surdo, mas insiste em que eu me sente e conta a história de quando foi a Carinhanha “fundar o posto de saúde da cidade” e voltou à Salvador casado. “A gente não precisa conhecer pra gostar. O amor vem depois, o importante é saber se é de boa família e se te agrada”, aconselha Valdete.

Acho o curta “Canoa Veloz” muito bonito, mas com áudio difícil de acompanhar. “Negócio Fechado” causa risadas no final, mas não muitos comentários. Já a animação “O jumento santo e a cidade que acabou antes de começar”, de narração rápida e irônica, é vista com atenção por crianças e adultos. “Juro que vi: Matinta Perera” é simplesmente encantador, quase arranca lágrimas desta que vos escreve.


Silêncio, por fsvor.

Nada de chuva.

Quase dava para ver a lua cheia por entre as nuvens. Tudo sairia perfeito. Mas...

Começa “Tapete Vermelho” e... o som vai embora, o filme some e a tela começa a murchar. Em Belo Horizonte, a queda do gerador de energia causaria vaias, reclamações, as pessoas iriam embora. Os carinhanhenses não. Continuam sentados, alguns levantam para pegar pipoca, esperando a resolução do problema técnico. E começa de novo. Matheus Nachtergaele com sua calça alta de jeca e sotaque carregado do interior de São Paulo reaparece. Mais cinco minutos e puffff, lá se vai a tela a murchar mais uma vez. Meia hora de espera paciente. Alguns vão embora, mas a praça continua cheia. “Agora vai!” Ligado pela terceira vez, o gerador aguenta até o fim do filme.

Os espectadores também, encantados pela história, pela noite fresca, pelo cinema.

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