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Pilulista: Melhores filmes de 2009

por Daniel Oliveira

Fotos: Divulgação

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A repercussão mais palpável, mas não a única, da Pilulista com os melhores filmes de 2008 foi a transformação até do Oscar, que resolveu nos copiar e mudar sua lista de indicações para 10. Eles não fizeram nada sem nos ligar antes e perguntar se estava tudo bem e talz, mas... foda, né?

Sério: o top 10 é uma das instituições mais antigas da humanidade e, mesmo antes do primeiro grande deles (os Mandamentos), algum neandertal já devia ter listado as dez carnes e/ou os dez melhores animais a serem caçados. O Pílula Pop tem muito prazer em manter a tradição e, para isso, contou mais uma vez com a ajuda de nossos incansáveis (e invejáveis) colaboradores, respondendo à pergunta: quais foram os 10 melhores filmes de 2009?

Sem a presença de títulos como “Onde os fracos não têm vez”, “Sangue negro”, “Batman – O cavaleiro das trevas” e “WALL-E” – que eram favoritos quase obrigatórios nas listas do ano passado – o campo de batalha neste ano foi mais aberto. Por mais que o primeiro lugar tenha tomado a dianteira logo no início sem largar mais, os outros nove postos foram disputados por nada menos que 57 filmes.

O legal da Academia Pílula Pop de Artes e Popices Cinematográficas é que cada lista é bastante diferente da outra e os mais diversos longas têm a chance de entrar no top 10. Foram os casos de “Inimigos públicos”, “Aquele querido mês de agosto” e “Anticristo” – que bateram na trave e por poucos pontos não apareceram aí embaixo – passando por “Se beber, não case”, “Foi apenas um sonho” e “Star Trek”.

No final, a lista saiu equilibrada, justa e com 10 filmes que, sem dúvida nenhuma, devem ser conferidos por quem gosta de cinema. 2009 pode não ter sido um ano de favoritos, mas trouxe bastantes títulos para gerar discussões acirradas entre os mais diversos gostos. E é por isso que, claro, as listas de cada um de nossos colaboradores estão no link lá embaixo para você, leitor fiel, poder brigar com cada um deles separadamente. Sem mais embromação. Até 2010. Com (mais) bons filmes.


10º Entre os muros da escola (Entre les murs, dir. Laurent Cantet)


...Realidade e ficção misturam-se em uma obra que, mesmo passada totalmente dentro da escola, revela toda uma realidade que se estende para além de seus muros...

Palma de ouro de Cannes em 2008, “Entre os muros da escola” é ao mesmo tempo extremamente simples e complexo, levantando com sua narrativa quase documental algumas das questões mais aterradoras do sistema educacional contemporâneo. Como educar crianças e jovens que se alimentam com toneladas de informação diariamente via Internet? Que saltam de uma aba pra outra, vendo dois vídeos ao mesmo tempo, sem fixar a atenção em nenhum deles? Que entendem mais de tecnologia que os próprios professores? Que convivem com a violência e a falta de perspectiva no seu dia a dia? Que carregam armas em suas mochilas? Como? O filme de Laurent Cantet, que tem a sabedoria de não ousar responder a essas perguntas, começou comendo quieto em nossa votação, aparecendo em várias listas, mas sempre lá embaixo, e ganhou um merecido sprint no final. Décimo lugar com louvor.


Desejo e perigo (Se, jie, dir. Ang Lee)


...uma grande homenagem ao cinema, realizada por um mestre da direção. São duas horas e quarenta de pura beleza e domínio da linguagem...

Alguns filmes nasceram para ganhar. Se aí em cima temos o vencedor de Cannes em 2008, aqui temos o Leão de Ouro de Veneza nos idos de 2007. Apesar disso, “Desejo e perigo” só veio aportar nos cinemas belorizontinos em 2009. E seu jogo de sedução – mais uma aula de direção de Ang Lee – extrapolou os limites da tela, hipnotizou os espectadores e ganhou um merecido lugar em nossa lista. Do espetáculo visual da fotografia de Rodrigo Prieto ao roteiro que Lee usa mais uma vez para encadear repressão e tragédia, o filme é uma daquelas obras completas e impecáveis que merecem ser vistas de novo e de novo. E de novo.


Gran Torino (dir. Clint Eastwood)


... é menos um filme sobre preconceito e mais uma história sobre como o mundo mudou – pra pior – e mesmo isso não significa o fim do mundo ou o fim de tudo...

Apenas um diretor poderia fazer com que “Gran Torino” não fosse algo bastante constrangedor. E apenas um ator poderia interpretar seu protagonista, Walter Kowalsky, dando à sua senilidade e aos seus preconceitos uma dignidade inerente. Essa pessoa é Clint Eastwood. Assim como Woody Allen, ele segue produzindo filmes – do jeito que quer e com o conteúdo em que acredita - com uma proficuidade e rapidez impressionantes. E o faz porque sabe seu oficio como poucos. E tem um respeito adquirido em seus mais de 50 anos de carreira. “Gran Torino” não é fácil: é forte, de personalidade, por vezes melódico, por vezes amargo. Assim como seu autor. Que já tem uma assinatura na história do cinema. E o reconhecimento dos votantes de nossa lista.


Amantes (Two lovers, dir. James Gray)


... Egocêntricos, Leonard e Michelle insistem ao mesmo tempo na fraqueza autodepreciativa de se dedicarem a quem não os merece, como justificativa para não amarem a si mesmos...

“Amantes” é um daqueles filmes que eu fui ver sem grandes expectativas. Não sou fã do diretor James Gray, nem de Joaquin Phoenix ou Gwyneth Paltrow, e a sinopse não me parecia nada de mais. E ele acabou rendendo uma das minhas resenhas mais apaixonadas do ano. Isso porque Gray e Phoenix têm uma compreensão tão absoluta e compassiva do pobre Leonard, e da história que ele protagoniza, que é quase impossível não sentir a dor que eles (car)pintam na tela. Repetindo as palavras do meu texto, é um filme lúgubre, melancólico e poeticamente triste. Que deprimiu e emocionou quatro de nossos escribas (sim, eu incluso) e aparece aqui como o patinho feio impopular, deslocado, esquisito – e belíssimo – da turma.


O Lutador (The wrestler, dir. Darren Aronofsky)


... poucas vezes a expressão “fazer o papel de si mesmo” será dita não como crítica, mas com uma grande dose de respeito...

Segundo vencedor do Festival de Veneza na nossa lista, “O lutador” divide com “Gran Torino” o realismo amargo, a dureza de uma vida que não para e não perdoa seus protagonistas, além da direção primorosa. Muito se poderia dizer do filme de Aronofsky, de sua câmera dardenniana, de sua fotografia palpável que permite quase sentir o cheiro do buraco em que Randy Robinson se encontra, da bela música de Bruce Springsteen. Mas basta dizer que “O lutador” é um filme que gerou vida. Que deu uma segunda chance a Mickey Rourke, numa volta por cima para a história de Hollywood. E que rendeu um dos melhores diálogos do ano: “Guns’n’roses era foda. Aí aquela bicha do Cobain tinha que aparecer e arruinar tudo”. Não que a gente concorde, mas...genial, né, não?


Quem quer ser um milionário? (Slumdog millionaire, dir. Danny Boyle)


... seu final faz o coração querer explodir de alegria e ansiedade e tristeza e beleza e amor...

A pergunta de 20 milhões de rúpias: quase um ano depois, “Quem quer ser um milionário?” ainda merece os oito Oscar que ganhou? Por contar com um elenco irretocável. Por comunicar tão bem uma história universal e de apelo popular quase irrestrito. Porque é legal que a Academia esteja antenada com o gosto do público de vez em quando. Porque Jai Ho ainda é um hino irresistível. E porque D. estava escrito. Sim, ele merece. Como mereceu um lugar na lista de cinco de nossos colaboradores e no abre-alas de nosso top 5.


(500) dias com ela ((500) days of Summer, dir. Marc Webb)


... A definição para o que você quer ela diga é comédia romântica. Que vocês estão vivendo uma comédia romântica. Com um enorme “Felizes para sempre” no final. Só que isso só existe no cinema...

Houve quem disse que “(500) dias com ela” é mais do mesmo. Mais uma comédia romântica. Sinceramente: acho que essa pessoa não entendeu o filme. Ou nunca teve seu coração partido. Nunca se apaixonou sem ser correspondido. Porque, sim, o longa de Marc Webb carrega uma grande carga de identificação na sua bagagem de sucesso indie (e meu texto não pôde ignorar isso). Mas seria injusto - e errado - dizer que Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel não nasceram para os papéis de Tom e Summer. Que o visual do filme, destacando o azul dos olhos da atriz e a arquitetura pouco explorada de Los Angeles, não é de cair o queixo. E que a trilha não é milimetricamente precisa. É pop, é indie, é romântico e é irônico. Identificação ou não, é tudo que o Pílula Pop preza. Por isso, nossos colaboradores colocaram “(500) dias com ela” aqui em cima da lista.


Up – altas aventuras (Up, dir. Pete Docter e Bob Peterson)


... Ao escolher um velhinho rabugento para protagonizar uma aventura infantil, o estúdio mais uma vez nada contra a corrente e carrega na obra o peso da idade e a nostalgia de sonhos não vividos...

“Up” ocupa no nosso top 10 a mesma posição que “WALL-E” ocupou em 2008. Mais do que indicar a qualidade dos dois filmes – a animação de Pete Docter definitivamente não é uma obra-prima como “WALL-E” ou “Ratatouille” – a coincidência confirma a Pixar como um dos autores mais consistentes e competentes de Hollywood hoje. Ponto. Ao lado de Eastwood, Aronofsky, Ang Lee e Cantet, o estúdio é um dos nomes de peso da nossa lista e merece sua colocação, mesmo que esse não seja seu melhor filme. E que fique claro: não é o seu melhor mas é, sim, um das melhores produções norte-americanas do ano. E honra nossa medalha de bronze, nem que seja exclusivamente por seus 10 minutos iniciais, que fizeram se debulhar em lágrimas qualquer ser dotado de coração.


Milk – a voz da igualdade (Milk, dir. Gus Van Sant)


... é porque, apesar de suas lutas, vitórias e das sementes plantadas, as coisas não mudaram tanto assim quase nada que “Milk – a voz da igualdade” é um filme político. De discursos, discussões e afirmações políticas...

Parafraseando Sean Penn ao receber seu Oscar em fevereiro, os colaboradores do Pílula são um monte de “esquerdistas, adoradores de homossexuais, filhos da mãe...”. Sim, a gente é. E com orgulho. É por acreditar que muita coisa precisa ser mudada e que muita coisa pode ser aprendida com Harvey Milk que Gus Van Sant fez seu filme. E é por acreditar que muita coisa precisa ser mudada e que muita coisa pode ser aprendida com Harvey Milk que sete de nossos votantes deram a ele nossa medalha de prata – e, de quebra, fizeram aqui o que o Oscar nunca teria coragem de fazer. É um filme. É uma história apaixonante. É uma tragédia do preconceito e um atestado de quanto ainda precisamos avançar como civilização. E é uma afirmação política – assim como seu lugar no nosso pódium.


Bastardos inglórios (Inglorious basterds, dir. Quentin Tarantino)


... Mais do que seu filme mais maduro, “Bastardos Inglórios” é até agora a maior declaração de amor de Tarantino ao cinema e ao poder dos filmes de transformar (literalmente) a realidade...

Não teve jeito. Desde o primeiro voto cadastrado em nossa lista, “Bastardos inglórios” assumiu o primeiro lugar e não saiu mais de lá. Ele simplesmente foi o melhor filme do ano segundo quatro de nossos colaboradores – e esteve presente na lista de oito dos 13 votantes. O Pílula Pop ama Tarantino (será que ele ama a gente?). Com quase 20 pontos de frente aos demais competidores, a declaração de amor do cineasta foi quase uma unanimidade e nos fez, como é do feitio de seu autor, acreditar mais no cinema e se apaixonar mais por ele. Encheu nossos olhos, quase nos convenceu a torcer por um nazista (Christoph Waltz VAI ganhar o Oscar no ano que vem) e colocou Brad Pitt onde ele deveria sempre estar: fazendo comédia. Além, é claro, de ter nos dado uma nova musa para idolatrar: Mélanie Laurent.

Diferente e sem pontos de comparação com o trabalho anterior de Tarantino, “Bastardos inglórios” é o melhor elenco e a melhor direção de atores de sua carreira. É uma obra admirável que nos deixa ansiosos e adoecidamente curiosos pelo que ele ainda vai fazer. Que venha mais.

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