Busca

»»

Cadastro



»» enviar

A vida partida

Gramado 2007: Nacido y Criado, de Pablo Trapero

por Paulo Henrique Silva

» receite essa matéria para um amigo

Se o Festival de Cinema de Gramado servir como termômetro para os próximos lançamentos nacionais, muita gente continuará lamentando, como eu, a falta de um filme de qualidade indiscutível – tônica dos primeiros sete meses de 2007. Os longas brasileiros em competição na serra gaúcha, entre os dias 12 e 18 de agosto, não arrebataram crítica e público. Os poucos destaques foram “Deserto Feliz” e “Olho de Boi”.

Entre os estrangeiros, porém, o saldo foi muito positivo. Vencedor dos Kikitos de melhor filme, direção e fotografia, “Nacido y Criado” dá continuidade à boa safra do cinema argentino. É o quarto longa de Pablo Trapero (“Do Outro Lado da Lei” e “Família Rodante”), um dos expoentes da nova geração de cineastas portenhos, ao lado de Daniel Burman (“Abraço Partido”) e Lucrecia Martel (“O Pântano”, “A Menina Santa”).

“Nacido y Criado” se debruça sobre conflitos familiares, tema principal da cinematografia argentina atual. As questões domésticas surgem como reflexo da crise econômica sofrida pelo país, metáfora para as falhas do governo em seu papel paternalista, de proteção aos seus “filhos”. Não por acaso, grande parte da produção argentina recente é protagonizada por representantes do sexo masculino. É justamente sobre as responsabilidades do homem na família – como pai e marido – que o filme de Trapero trata.


O decorador Santiago tem uma vida confortável ao lado da esposa Milli e da filha Josefina. Os créditos de abertura buscam enfatizar esse bem-estar, através de fotos de família. Os primeiros minutos da narrativa retratam o dia-a-dia deles,com as tarefas cotidianas. Essa harmonia se rompe com um acidente de carro. A partir daí, o filme toma outro rumo, transferindo-se para um dos lugares mais gélidos e ermos da Argentina.

A Patagônia, onde Santiago irá expiar as suas culpas, reflete os sentimentos do protagonista. A vida perde o significado e se volta para um estado primitivo, com o ex-decorador fazendo o bastante apenas para sobreviver, trabalhando num aeroporto prestes a fechar. Ele tenta fugir de seus fantasmas, sem sucesso. A falta de conforto apontará para outro caminho, para a necessidade do outro.

O calor humano se manifesta numa cena em particular, quando Santiago surta e tira as roupas no meio da neve. O amigo e colega de trabalho Robert virá em seu socorro, abraçando-o e aquecendo-o. Robert se mostrava apenas como um homem bruto, capaz de abandonar a namorada grávida. O personagem cresce durante a narrativa e se torna a alavanca que empurrará Santiago de volta à realidade.

« voltar para o início

» leia/escreva comentários (0)