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A marca da maldade

31.05.05

por Daniel Oliveira

Old boy

(Coréia do Sul, 2003)

Dir.:Chan-Wook Park
Elenco: Choi Min-Sik, Yu Ji-Tae, Gang Hye-Jeong, Ji Dae-Han

Princípio Ativo:
Maldade, pura maldade

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Certa vez, em uma aula de jornalismo, meu professor fez o seguinte comentário a respeito da declaração de um juiz, que afirmava que jornalistas não precisavam de diploma, afinal não lidavam com vidas humanas, como médicos, por exemplo: “Ok, amanhã vou publicar no jornal que a irmã desse juiz é lésbica e que a mãe dele é uma prostituta. Não tenho nenhuma responsabilidade com a vida de ninguém, não é mesmo?”.

“Old boy”, de forma mais cruel e pessimista, concorda com meu professor. Não que ele tenha a ver com jornalistas. Mas o longa partilha da opinião de que histórias têm poder, e muito. Em uma estranha metalinguagem, o filme mostra a capacidade que simples relatos têm de fazer sofrer, inventar vidas, causar mortes. Ou você não ficou com medo do lobo mau quando escutou “Chapeuzinho vermelho” pela primeira vez? Não acha que o mundo vai acabar em cada episódio de “24 horas”? Não rói as unhas para saber onde estão os náufragos de “Lost”?

Divagações a parte, “Old boy” é uma experiência que leva a um final catártico, em que você parece sentir as exatas emoções do protagonista, Oh Dae-su, um pai de família que é seqüestrado e fica 15 anos em um quarto de hotel vagabundo. Pela TV, sua única companhia, ele descobre que sua mulher foi assassinada e ele é o principal suspeito. Durante o cativeiro, ele treina para se vingar de seu algoz quando escapar.

Dae-su é solto e deve descobrir o que aconteceu, com a ajuda de Mido, uma sushi-woman. Se você achou a vingança da Noiva de Tarantino sangrenta e emocionalmente forte, prepare-se. A violência gráfica e emocional ganha aqui contornos de masoquismo. A delicadeza do protagonista faz com que ele extraia dentes de um inimigo com um...martelo.

Com uma edição rápida e fragmentada, que retrata o caos da mente de Dae-su, o filme envolve o espectador no desespero do protagonista. Como o início, em que o protagonista segura um suicida pela gravata, do alto de um prédio (plano que é repetido, com personagens diferentes, no final), mostra, “Old boy” é um noir estranho de personagens à beira do abismo, sem mais nada a perder, a não ser a vida. O roteiro é um círculo de vingança e maldade, em que tudo tem conseqüências - e elas não são boas.

O filme recebeu o Grande Prêmio do Júri de Cannes em 2004, presidido por Quentin Tarantino. Hollywood, obviamente, já encomendou um remake do longa. Como eles entendem muito de cinema, devem botar um final feliz e tirar todo o impacto do filme. Portanto, se você quer mesmo sofrer, se desesperar, ficar indignado e sair do cinema quase em estado de choque, prepare o estômago e assista ao original. Mas depois não venha reclamar comigo...

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