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À beira do abismo

29.07.09

por Daniel Oliveira

À deriva

(Brasil, 2009)

Dir.: Heitor Dhalia
Elenco: Laura Neiva, Débora Bloch, Vincent Cassel, Camilla Belle, Thomas Huszar, Cauã Reymond, Gregório Duvivier

Princípio Ativo:
memórias adolescentes

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Filipa está na linha entre a infância e a adolescência. Naquela fase em que tentamos desesperadamente ordenar o caos, prestes a descobrir, porém, que a vida é caos. Desequilíbrio. Sofrimento. Imperfeição.

Essa inocência perdida ganha, em “À deriva”, os traços delicados e a determinação desajeitada da estreante Laura Neiva. Maior achado (no Orkut) deste terceiro filme do diretor Heitor Dhalia, ela interpreta a filha mais velha de Matias (Cassel) e Clarice (Bloch), casal de férias em Búzios para tentar salvar uma relação em frangalhos. Em meio à traição do pai e o alcoolismo da mãe, Filipa é confrontada com a descoberta de sua própria sexualidade, jogada em um mundo adulto no qual ela tenta (infantilmente) encontrar sentido.

Desagradável e deprimente, a derrocada do casamento de Matias e Clarice chega ao público pelos olhos da protagonista. Ao mesmo tempo em que o olhar infantil dá certa doçura a um retrato tão indigesto, ele torna tudo mais intenso, forte, definitivo – como um conjunto de memórias sentimentais da adolescência, em que tudo é tão hiperbólico. Cada traição parece mais pérfida. Cada briga, mais sórdida. Cada desilusão, mais incurável. É um olhar que recorda com carinho da confusão turbulenta do primeiro amor e que reconstitui a amante do pai (Belle) quase como uma odalisca de roupas e maquiagem vulgares.

Essa dualidade intensidade/doçura também ganha vida na fotografia de cores fortes de Ricardo Della Rosa. O ‘mundo adulto’, de problemas e sofrimento, ganha os tons marrom e alaranjado da terra (e do uísque). A fuga desse universo é sempre a água, a piscina, o azul estonteante do mar de Búzios, para onde Filipa e seus irmãos sempre correm quando o ambiente se torna irrespirável demais para sua (i)maturidade.

Laura Neiva dá vida a Filipa com uma performance frágil, espontânea em alguns momentos e surpreendentemente madura em outros – daquelas que torna imperdível seu próximo trabalho. Seu magnetismo só ganha concorrência no filme na ótima Clarice de Débora Bloch, uma rainha passivo-agressiva enigmática e seca em seu sarcasmo. Vincent Cassel tem algumas boas cenas com os filhos, mas parece um tanto limitado pelo idioma.

A trilha de Antonio Pinto amarra tudo isso muito bem e seria belíssima, não fosse altamente derivativa (Brilho eterno e Amelie Poulain vêm à mente). Heitor Dhalia se perde um pouco no ato final, mas mostra uma maturidade que torna todo aquele cenário autêntico, especialmente na direção do elenco adolescente. É sua mão firme que torna o filme um retrato sincero. Intenso. Dolorido. Agridoce, como a adolescência.

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Inocência e amargura, frente a frente.

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