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Aos quinze

06.10.09

por Daniel Oliveira

Aquário

(Fish Tank, Reino Unido, 2009)

Dir.: Andrea Arnold
Elenco: Katie Jarvis, Michael Fassbender, Kierston Wareing, Rebecca Griffiths, Harry Treadaway, Jason Maza

Princípio Ativo:
adolescência

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- Eu me apaixonei pelo namorado da minha mãe e quis me vingar depois que vi ele transando com ela. Aí eu fui e dei pra um cara.

Essa é a história da vida de Mia (Jarvis), 15 anos, hormônios e rebeldia em ebulição. Sem ir à escola, sua rotina se resume a caçar confusão, encher a cara e ensaiar passos de rap em um quarto abandonado de seu prédio. Quase não vemos o rosto de sua mãe (Wareing) durante o filme simplesmente porque ela é uma ausência na vida de Mia. Trata as duas filhas como um estorvo, sem um único sinal de amor materno nas mais de duas horas de projeção, direcionando todas as suas atenções para o namorado Connor (Fassbender).

Não é de se estranhar, portanto, que quando Connor passe a demonstrar interesse e apoio por Mia, ela se apaixone por ele. A protagonista está no auge da adolescência, sem nenhum grupo de apoio que a segure na fase mais atribulada de sua vida. Na confusão de hormônios e sentimentos, e na sexualidade catalisada pelos clipes de rap dos quais ela é fã, nada mais natural que paixão, atração e preenchimento da figura paterna se embaralhem dentro dela.

E se Mia é o coração desse “Aquário”, seu cérebro imperscrutável é Connor. Sem deixar absolutamente claro se quer somente ser um pai para Mia, ou se tem mesmo interesses escusos - num jogo de “belisca e sopra” que seduz a protagonista e o espectador - o personagem é uma esfinge que carrega a tensão do filme até se revelar em duas falas de uma cena crucial.

E tensão é o codinome da direção de Andrea Arnold. Assim como em “Marcas da vida”, ela centra seu filme numa protagonista feminina lidando com um caldeirão de sentimentos contraditórios, um sofrimento originado e alimentado dentro dela mesma, de forma silenciosa e explosiva ao mesmo tempo. A irracionalidade da vingança é outro tema recorrente, assim como a câmera em movimento que, em “Aquário”, pulsa com a intensidade adolescente de Mia.

Essa intensidade, porém, jamais transborda para a história, que segue o ritmo cadenciado, realista, do filme anterior de Arnold. O grande risco que a diretora e roteirista corria aqui era se apaixonar por sua protagonista. Mas a cineasta não trata Mia com carinho, e sim com realismo. Ela quer que a personagem cresça – e isso envolve dor, levar tombos e não desistir com eles. Descobrir que o mundo, na maioria das vezes, é um lugar feio e hostil. O que resulta em um tapa na cara merecido, apesar de ninguém ali ter o direito de dá-lo.

Mas, ao mostrar em um enquadramento lá pelo final que Mia é maior que sua mãe, Arnold parece dizer à garota que ela é maior que toda essa feiura e hostilidade. E isso, sim, é ser uma boa mãe.

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