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Quem tem medo do lobo mau?

10.10.09

por Daniel Oliveira

A fita branca

(Das weisse band, Alemanha/Áustria/França/ Itália, 2009)

Dir.: Michael Haneke
Elenco: Christian Friedel, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Ursina Lardi, Burghart Klaussner

Princípio Ativo:
a antropologia e a fábula

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O “realismo por distanciamento” de Michael Haneke pode irritar alguns. Não sem certa razão. Ele conta histórias em sua tela - como esse “A fita branca” - com enquadramentos que buscam se distanciar da ação, numa observação quase antropológica, sem trilha musical, tentando não induzir a percepção do espectador. Mas é exatamente essa abordagem que determina a relação do público com seu filme.

Assim como em “Caché”, Haneke apresenta histórias tão interessantes, complexas e abertas - sem usar os truques usuais do cinema (e da ficção) para dar sentido a elas (a música e o close, por exemplo) – que é inevitável que, à medida que a trama se desenrola, várias perguntas e inferências sejam articuladas pelo espectador. Enquanto o cineasta austríaco realiza sua obra na tela, outra é construída mentalmente pelo público, cheia de questões, interpretações e associações próprias.

E, em uma confusão bastante compreensível, o espectador espera que essas dúvidas sejam respondidas pelo filme de Haneke. E elas não são. É como se ele dissesse:

- Essas perguntas são do seu filme, não do meu. Portanto, cabe a você respondê-las, não a mim.

É quando neguinho fica puto. Mas é esse controle da experiência cinematográfica a façanha que prova a segurança típica do título de “grande autor” que Haneke possui.

Em “A fita branca”, ele apresenta o cotidiano de uma pequena aldeia na Alemanha de 1917, tomada por uma inesperada e misteriosa onda de violência. O diretor apresenta calmamente os personagens, as ligações entre eles, os costumes e a moral que imperam no lugar, a hierarquia e as relações de poder. No meio do caminho entre uma encenação fidedigna às versões originais das fábulas medievais e o documentário antropológico, esse caldo grosso vai se acumulando até que a hipocrisia transborde, trazendo o cheiro do ralo em diálogos fortes, cenas secas, quase cômicas se não fossem absolutamente aterradoras.

Os personagens - a princípio, quase tipos: o professor, o pastor, o médico... - se mostram bem mais complexos. Pontiagudos como as roupas que usam e as casas em que moram – elementos cênicos que conformam não só a vila, mas suas almas, num universo geométrico e frio, desprovido de calor e sentimento - eles são, ao mesmo tempo, os ingredientes e os agricultores de Haneke.

Porque “A fita branca” é uma plantação em que as sementes da intolerância, ignorância, hipocrisia, culpa, ódio, exploração e miséria germinam em violência e terror. No meu filme, as crianças da aldeia serão os alemães adultos em 1933, 37, 39... Mas esse é o meu filme. Em se tratando de “A fita branca”, existem vários.

Mais pílulas:
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A liga da justiça.

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