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O diabo veste Prada begins

12.10.09

por Daniel Oliveira

Coco antes de Chanel

(Coco avant Chanel, França, 2009)

Dir.: Anne Fontaine
Elenco: Audrey Tautou, Benoît Poelvoorde, Alessandro Nivola, Marie Gillain, Emmanuelle Devos

Princípio Ativo:
cinebiografia, a fórmula

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Estou numa sinuca de bico. Não tenho como negar que “Coco antes de Chanel” tem méritos óbvios: do figurino impecável (claro), à fotografia que explora o melhor das belas locações e da direção de arte de encher os olhos, passando pela trilha de Alexandre Desplat, numa reconstituição de época deslumbrante que, por si só, vale o ingresso.

O recurso da roteirista e diretora Anne Fontaine para explicar a revolução que a protagonista representa na moda àqueles que, como eu, não sabem diferenciar um Chanel de um Yves Saint-Laurent, é óbvio e extremamente eficaz. As roupas de Coco são como sua criadora: transgressoras, mas frágeis; buscando o direito de encarar os homens em pé de igualdade, mas também conforto (algo MUITO revolucionário numa época em que as mulheres se vestiam com penas, corsetes e 15 mil anáguas), sem jamais perder a feminilidade. Enfim, a mistura dos traços fortes de um pragmatismo funcionalista com o caimento do romantismo escondido da garota no quarto escuro.

Gabrielle Chanel, que cresceu pobre e cantou em cabarés para sobreviver, é retratada como uma mulher ambiciosa e prática. Apelidada Coco, nome da música que cantava, ela desafiou convenções e viveu num concubinato inusitado com um nobre, Étienne Balsan (Poelvoorde), numa relação de abuso mútuo e pragmático. Na casa dele, ela conhece o inglês Arthur “Boy” Capel (Nivola), paixão de sua vida. Uma das únicas pessoas de quem Coco não se aproximou por interesse, curiosamente foi ele que enxergou e incentivou o talento de Chanel, financiando o que viria a se tornar um império da moda.

A cereja no topo do bolo é, sem dúvida, Audrey Tautou no papel-título. Caso haja dúvidas de que se trata uma escolha inquestionável, a atriz francesa as destrói com o carisma e o talento que ela não põe em MODE 100% ON desde Amelie Poulain. (Imaginem Keira Knightley, primeira opção dos produtores, no papel).

Com tudo isso a seu favor, “Coco antes de Chanel” é um filme tanto obrigatório quanto feito por obrigação. Falta originalidade, alguma coisa que não grite CINEBIOGRAFIA em cada um de seus poros. O longa é uma fórmula do começo ao fim, indo contra todo o espírito de vanguarda e inovação representado por Chanel. O próprio tratamento da história da estilista como a de uma mulher sofrendo nos braços de (e por) homens é típico do romantismo machista que a própria artista tentou enterrar.

No meio disso tudo, ironicamente, falta certa emoção. Algo que arrebate tanto quanto os vestidos de Chanel na sequência final ou o visual deslumbrante. E eis a minha sinuca de bico: há dois anos, eu mesmo reclamei de uma cinebiografia com emoção (e melodrama) demais.

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Até eu que sou um obtuso em haute couture, sei que essa imagem é icônica. Então... é ela mesma.

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