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De repente, uma merda

10.12.09

por Mariana Souto

Do começo ao fim

(Brasil, 2009)

Dir.: Aluízio Abranches
Elenco: Júlia Lemmertz, Fábio Assunção, Jean Pierre Noher, Rafael Cardoso, João Gabriel Vasconcellos

Princípio Ativo:
o fator Ed Wood

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No mundo, há filmes bons, há filmes medíocres e há filmes ruins. “Do começo ao fim” é um filme ruim, daqueles que a gente enche a boca pra falar que é péssimo. Que a gente tem “prazer” em assistir e comentar depois. E, como espectadora, prefiro um ruim que me gere algum tipo de sensação ou reflexão do que um marromenos que passe batido.

Apesar de girar em torno de temas fortes como incesto e homossexualidade, o que mais chama atenção e dá pano pra manga é a própria construção cinematográfica. Em alguns momentos, o diretor parece não ter o menor domínio de linguagem. Não sabe a hora de cortar. Alguns planos duram eras nas expressões estáticas dos atores, enquanto passamos da observação para o constrangimento, daí para a risada e ainda dá tempo de voltar ao constrangimento.

Para um roteiro que se pretende “clássico narrativo”, o filme mostra pouco conhecimento de arco dramático. A construção das situações não é eficiente e, por vezes, é completamente desproporcional. Algumas reviravoltas são artificiais e servem apenas para dar algum conflito ao filme. Ainda assim, a sensação é a de um longa sem drama verdadeiro, especialmente quando se trata de um tema tão polêmico e controverso. Por mais que tenha gostado da opção do diretor por um filme delicado, que não levanta bandeiras ou busca motivos (embora ele sugira alguns indícios) e privilegia o aspecto afetivo da trama, tenho dificuldade em ver até que ponto isso foi de fato uma opção que não tenha passado pela covardia. “Do começo ao fim” omite por completo a fase provavelmente mais turbulenta da história – a adolescência – e já pula para um momento de pura aceitação e harmonia.

Com isso, a narrativa fica vazia e o filme, falso. E aí de nada ajudam outros elementos como os diálogos e as interpretações. Nessas horas a gente sente falta da Fátima Toledo. Há momentos de muita vergonha alheia: diálogos simples que resultam constrangedores, expressões supostamente densas viram risíveis. Tudo isso piorado pela já mencionada edição e pela trilha sonora que força a barra nas emoções de forma desconfortável, às vezes antes mesmo delas surgirem ou se tornarem coerentes.

É preciso ressalvar que nem tudo é tão terrível assim. Há alguns recursos fantasiosos na narrativa que são interessantes, assim como alguns momentos de desprendimento e auto-ironia – a brincadeira com o excesso de mortes, por exemplo. Mas, no fundo, o maior mérito do filme, pra mim, ainda é o fator Ed Wood: de tão ruim, ele fica gostoso de assistir.

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