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O seguidor de tendências

07.01.10

por Daniel Oliveira

Sherlock Holmes

(EUA, 2009)

Dir.: Guy Ritchie
Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams, Mark Strong, Eddie Marsan, Kelly Reilly, Hans Matheson

Princípio Ativo:
reciclagem

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Ano novo, vida nova, tudo novo. Se você é dos esperançosos heraclitianos que rezam por essa cartilha, passe longe de “Sherlock Holmes”.

A dinâmica do trio de protagonistas é chupada de “Piratas do Caribe”. E mesmo deixando o desequilíbrio criador-criatura de lado, o longa de Guy Ritchie sai perdendo na comparação. O Holmes de Robert Downey Jr. é um dândi ambíguo e ardiloso como o Jack Sparrow de Depp, mas nem de longe tão engraçado – em parte devido às piadas irregulares do roteiro. Já Watson é um herói de ação duvidoso, mas pelo menos ganha uma necessária auto-zoação nos olhares de gigolô de luxo e no bigode de ator pornô dos anos 70 de Jude Law, ausente no insosso Will de Orlando Bloom. Desempatando a peleja, Rachel McAdams é uma escolha equivocada para a golpista Irene Adler, sem o sex appeal necessário ao papel, perdendo feio para o romantismo espevitado da Elizabeth Swann de Keira Knightley.

A trama, por sua vez, é o rascunho de uma aventura do Robert Langdon de Dan Brown, eletrocutado à vida por Ritchie como um roteiro-Frankenstein. A história toda é uma mera desculpa para as tiradas de Downey Jr. e seu flerte homoerótico com Law. Típico macguffin hitchcockiano, ela envolve magia negra, ordens secretas, conspirações políticas e simbologias tão ridículas que fazem a literatura de Brown parecer Dostoiévisky.

A ação física e suja é adaptada da série Bourne, remixada com o humor e o espírito das ruas de Londres, característicos dos filmes de Ritchie. A edição vai agradar em cheio ao Transtorno de Déficit de Atenção do público adolescente sem paciência para as três horas de “Avatar”. Some a ela a fotografia escura de Philippe Rousselot e fica quase impossível enxergar a Londres vitoriana reconstituída pelos efeitos digitais.

Por fim, há o papo de “reinvenção para um novo público”, com o mesmo tom marqueteiro do novo James Bond. E a ótima química Downey Jr./Law que, mesmo importada dos bromances contemporâneos, carrega o filme nas costas com os melhores diálogos e piadas (há uma insinuação homoerótica também entre o vilão bondiano Lord Blackwood e seu cúmplice).

Conan Doyle provavelmente aprovaria o humor e a reinvenção irreverentes; já seus fãs mais ardorosos devem organizar motins para queimar o filme em praça pública. Qualquer mistério do (ótimo) jogo Scotland Yard é mais interessante e melhor amarrado. Especialmente quando o ritmo típico do diretor inglês impede o espectador de acompanhar o raciocínio das explicações de Holmes – centrais à obra original do autor. E isso nem a expressão cocainômana de Downey nem a sobrancelha de Law conseguem esconder.

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I wish I knew how to quit you!

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