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World Music

10.01.10

por Rodrigo Ortega

Vampire Weekend - Contra

(2009)

Top 3: "Cousins", "Horchata", "Run"

Princípio Ativo:
Refresco

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Era 1º fevereiro de 2008 e ele não se sentia obsoleto como hoje. Tinha recebido em sua casa em Londres o CD de Nova York - Vampire Weekend. Ouvira recomendações de pessoas em número suficiente para o encorajar a ouvir, mas nem tão grande que o impedisse de escrever a matéria como se a descoberta fosse dele. "O indie rock chega à África" e outras simplificações foram copiadas em manchetes mundo afora.

Hoje, dois anos depois, os correios entregam antidepressivos e o novo disco do hype pelo qual ele já acreditou ter um mérito pessoal. "Contra", ele lê na capa, sem nenhuma surpresa, já que há três meses vem sendo bombardeado com links, tweets e exclamações sobre um disco que todo mundo parece já ter ouvido, menos o editor de uma revista inglesa em crise - de meia idade a dele; financeira a dela. "Every dollar counts, and every morning hurts", ele ouve na primeira estrofe de "Run", e suspira.

Durante os seis minutos de "Diplomat's song", as texturas ricas e as dinâmicas que conseguem ir do dancehall ao arranjo de cordas o fazem querer ressucitar o zine que morreu em 1986. A doçura de "Taxi Cab" quase o fazem ligar para a antiga namorada que ele abandonou no mesmo ano. Mas aí vêm "California English"e "Cousins", ele ouve aquele reggae cercado pelos vinte graus negativos lá fora e volta a pensar que alguma coisa está errada.

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São quatro da tarde e o céu está roxo de tão azul. A cama molhada de suor e a certeza de que nunca houve um dia mais quente são parcialmente disfarçadas pelo ventilador de teto. Na sua frente o notebook e os arquivos recém-baixados. Começa com "Cousins", já conhecida, aquela maravilhosa mistura de Bob Dylan e Chiclete Com Banana. Dançar sem se mexer é a única opção.

"It struck me that the two of us could run", ele ouve na segunda estrofe de "Run", e sorri. As melodias certas em linhas tortas, as batidas esfuziantes, os teclados que imitam guitarras que imitam teclados que imitam caixinhas de música. Tudo vai surgindo como uma mesa de drinques refrescantes e coloridos servida na sua frente, exatamente o que ele precisava.

A sensação de que aquela música era dele, foi composta pensando na sua vida - tudo bem sentir isso em 1998, num quarto escuro ao som de sinfonias doce-amargas, pensou. Mas adulto, num sábado de sol escaldante, ouvindo um ska cambaleante como “Holiday”, era engraçado. E voltou mais uma vez em "I think ur a contra" para tentar entender o que era “ser um contra”, mas desistiu quando teve vontade de dançar parado de novo.

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"Você tem que escutar mais Bob Marley", ela disse despretensiosa, enquanto dirigia.


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