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Mulher à beira de um ataque de nervos

12.01.10

por Daniel Oliveira

A vida íntima de Pippa Lee

(The secret lives of Pippa Lee, EUA, 2009)

Dir.: Rebecca Miller
Elenco: Robin Wright Penn, Blake Lively, Alan Arkin, Maria Bello, Winona Ryder, Keanu Reeves, Julianne Moore, Monica Bellucci

Princípio Ativo:
Rebecca + Robin + Blake

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Meninas devem obedecer suas mães. Mocinhas devem ser discretas. Senhoras devem cuidar de maridos e filhos. Mulheres, bem mais que homens, estão condicionadas em todas as idades a papéis e funções. Pippa Lee viveu 40 anos sufocada por eles. E está prestes a ter um colapso nervoso.

“Debaixo de toda essa ansiedade, você deve ser realmente muito feliz”

A infância de Pippa foi condicionada pela bipolaridade da mãe, Suky (Bello). Adolescente, ela se perdeu no mundo até se casar com o editor Herb Lee (Arkin), bem mais velho que ela. Depois do terceiro enfarto dele, o casal se muda para uma casa perfeita no subúrbio, onde Pippa pode ser a enfermeira do marido e uma cozinheira para as visitas, enquanto é tratada com desprezo pela filha.

Durante essa longa trajetória, a protagonista de “A vida íntima de Pippa Lee” nunca teve tempo de descobrir quem realmente é. Pulando do drama da mãe para a promiscuidade + drogas para o marido egocêntrico, ela estava sempre sendo definida pelos outros – âncoras e muletas nas quais a personagem se apoia e se afunda ao mesmo tempo.

“O que eu mais gosto em você? Que você me suporta.”

Adaptando seu próprio livro, a diretora e roteirista Rebecca Miller se mostra mais uma vez delicada e sincera no trato com o universo feminino, após os tocantes “O tempo de cada um” e “O mundo de Jack e Rose”. É difícil para o espectador entender os sentimentos de Pippa porque ela mesma não os compreende - e Miller sabe que a protagonista é um caldeirão de emoções muito complexo. Não por acaso, o título original fala daS vidaS secretaS de Pippa Lee.

Já outros personagens são bem esquemáticos: o vizinho é uma muleta do roteiro interpretada (sic) por Keanu Reeves no seu modo mais preguiçoso; e Winona Ryder dá à amiga Sandra uma histeria 15 tons acima do necessário. O ato final também simplifica bastante alguns conflitos, especialmente o relacionamento com a filha. Culpa do carinho que Miller tem por Pippa e do enorme desejo de que ela seja feliz – ou pelo menos tente

No fim, porém, três mulheres tornam “A vida íntima” acima da média. Blake Lively, que traduz em seu olhar frágil e assustado o quão perdida Pippa está durante a juventude. Robin Wright Penn, que transmite o desespero silencioso da protagonista adulta na sua entonação afetada e na expressão mecânica e deslocada. E Rebecca Miller que, com seus planos sempre em movimento, explora no detalhismo da direção de arte e do figurino a tradução cinematográfica daquele mesmo condicionamento feminino. Ao reconhecer como roupas e uma casa podem determinar e aprisionar uma mulher, a diretora se liberta dessa simplificação com seu olhar crítico e clama para sua protagonista o mesmo direito...de voar.

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Devo admitir: esse olhar de Robin Wright Penn explica melhor o filme que meu texto inteiro.

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