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Dentro de nós existe um monstro

18.01.10

por Daniel Oliveira / Win Butler

Onde vivem os monstros

(Where the wild things are, EUA, 2009)

Dir.: Spike Jonze
Elenco: Max Records, Catherine Keener, James Gandolfini, Lauren Ambrose, Paul Dano, Chris Cooper, Forest Whitaker, Catherine O’Hara

Princípio Ativo:
infância, solidão

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“Algo preencheu meu coração
com nada
Alguém me falou para não chorar


Max tem um mundo inteiro dentro dele. Um mundão de energia, explosão e criatividade e criação e destruição. Mas sua irmã cresceu e nem olha mais para ele. A mãe (Keener), sem a ajuda do pai, tem milhões de outras coisas com o que se preocupar. E o resultado disso é que ele se sente extremamente SOZINHO.

Mas agora que estou mais velho
Meu coração, mais frio
Eu posso ver que é uma mentira


Existe um tema visual recorrente em “Onde vivem os monstros”: a ideia de abrigo. É o que Max busca. Tanto no iglu que ele constrói no início do filme e é destruído pelo amigo babaca da irmã, quanto no “bolinho” gostoso dos monstros que habitam o mundo para onde o protagonista foge quando a mãe grita com ele.

Crianças, acordem
Detenham seus erros
antes que transformem o verão em poeira


Na paleta de cores do diretor Spike Jonze e seu diretor de fotografia (e parceiro habitual) Lance Acord, esse lugar é marrom-sujo-poeira-destruição-lama-furdúncio e amarelo-dourado-mágico-encantado. É o mundo pelos olhos de uma criança. Mas ele é habitado por monstros. De quem o protagonista quer ser amigo. E os quais ele quer ajudar. Só que os monstros são complicados: mesquinhos, invejosos, ciumentos, passionais, brutos, imprevisíveis, dependentes, introspectivos (cortesia do bom roteiro e dos ótimos dubladores)... projeções de um garoto para entender o que se passa ao seu redor.

Se as crianças não crescerem
nossos corpos aumentarem, mas nossos corações se rasgarem...
Nós somos apenas um milhão de pequenos deuses causando tempestades e arruinando todas as coisas boas


“Onde vivem os monstros” não é um filme para crianças. É um longa sobre solidão, dor, isolamento, tristeza. Sobre a incomunicabilidade e a vi(ru)olência que tornam a infância tão intensa – e tão assustadora. E sobre coisas que se destrói e se pode construir de novo; e outras que se destrói para nunca mais se recuperar. É um filme para a criança dentro de todo adulto, que reflete como crescer, na maioria das vezes, envolve sofrimento, perda e abandono.

Acho que só precisamos nos adaptar.

A direção de Jonze torna isso tudo tão autêntico, vivo, ao entrar naquele mundo e encená-lo com o mesmo carinho, ternura e empolgação de Max, de um garoto de 8, 9 anos. Se você não se apaixona pela dupla Max/Max (ator e personagem) da mesma forma que o diretor, e não sente a mesma compaixão (pelo personagem e por você), pode achar que falta um 'conflito' e se entediar no meio do caminho.

Com meu raio surge um brilho
Eu posso ver onde vou
estar quando o ceifador tocar minha mão


Max tem um mundo inteiro dentro dele. Mas não encontra um lugar no mundo do lado de fora, não o entende. Porque ele é uma criança. Não tem que entender. É por isso que a atuação de Max Records e a trilha de Burwell e Karen O são tão importantes, lembrando-nos disso todo o tempo. Resta saber se, crescidos, nossa criança aprendeu a entender.

É melhor você tomar cuidado daqui pra frente.”

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Max, KW, amizade, amor e dor.

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