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One man guy no more

21.01.10

por Daniel Oliveira

Amor sem escalas

(Up in the air, EUA, 2009)

Dir.: Jason Reitman
Elenco: George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick, Jason Bateman, JK Simmons, Melanie Lynskey, Danny McBride, Zach Galifianakis

Princípio Ativo:
reflexão

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Ryan Bingham (Clooney), protagonista de “Amor sem escalas” (péssima tradução para “Up in the air”), é um especialista em demitir pessoas. Ao se darem conta de que pararam no tempo durante os anos dedicados àquele trabalho, suas “vítimas” - invariavelmente e de formas muito particulares - entram em pânico. Lá fora tem gente bem mais preparada que elas. Aquele profissional entusiasmado que queria saber de tudo ficou pra trás, se bitolou. E é muito tarde para mudar isso.

Ryan também é um viajante compulsivo, que vive em aviões, aeroportos e hotéis, especializando-se em não criar raízes em nenhum lugar, nem construir laços ou relacionamentos duradouros com outra pessoa. Seu principal objetivo é atingir a marca memorável de 10 milhões de milhas. Quando conhece Alex (Farmiga) – uma versão dele mesmo “com vagina” - ele pensa em mudar. E se dá conta de que, durante os anos dedicados àquela atitude, pode ter ficado tarde demais.

Orgulhoso do tratamento especial que recebe em aeroportos devido às muitas milhas, o protagonista resume sua existência ao conteúdo e organização de sua mala e concorda com o Will de “Um grande garoto”: “todo homem é uma ilha. Eu sou Ibiza”. O diretor Jason Reitman mostra a perfeição matemática desse “sistema” na edição de sua parceira Dana Glauberman: ritmada, ágil e milimetricamente calculada.

É preciso que o protagonista veja a estupidez e a falta de sentido desse planejamento no estranho espelho representado pela novata Natalie (Kendrick). Ela passa a viajar com ele e, diferentes em suas opiniões, os dois são igualmente imaturos e radicais na incapacidade de enxergar e aceitar a espontaneidade da vida acontecendo ao redor. À medida que Ryan percebe que, como escreveu Loudon Wainwright, “being your own one and only is a dirty selfish trick”, e se transforma, a edição perde o pique matemático, ganhando o mesmo ritmo reflexivo que toma conta do personagem – e da boa trilha musical.

Há problemas pontuais. Em alguns momentos, o roteiro se torna ofensivamente esquemático, especialmente durante a parte do casamento. Além de a sequência toda exalar “ponto de virada sydfieldiano”, a personagem da irmã mais velha é completamente desnecessária. E a cena em que ele abandona a palestra correndo é o clichê dos clichês.

Mas, equilibrando-se entre uma comédia de diálogos refinados e um drama de silêncios melancólicos, o maior mérito do filme de Reitman é fazer você sair do cinema pensando. Sobre sua vida, suas escolhas, quem você é. Sobre o momento em que você se acomodou com o fato de entrar em uma loja, um aeroporto, um restaurante e ser tratado – e definido - de acordo com a cor do seu cartão de crédito, a marca dos óculos escuros, a classe com que você se veste. O filme é Ryan, epíteto desse comportamento, descobrindo que, para as pessoas que realmente importa, isso não faz a mínima diferença.

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Escondi a parte clichê na legenda: sim, é a melhor atuação da carreira de Clooney.

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