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Um olhar do inferno

18.02.10

por Daniel Oliveira

Preciosa - uma história de esperança

(Precious: based on the novel Push by Sapphire, EUA, 2009)

Dir.: Lee Daniels
Elenco: Gabourey Sidibe, Mo’Nique, Paula Patton, Mariah Carey, Lenny Kravitz, Sherri Shepherd

Princípio Ativo:
as imagens que não queremos ver

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Semanas atrás, a Vanity Fair publicou sua tradicional edição com o ensaio das “jovens atrizes da vez” que despontaram em Hollywood no ano anterior. Gabourey Sidibe, a protagonista de “Preciosa – uma história de esperança” não estava entre as garotas da capa, todas brancas e magras. Gabby é gorda. E negra.

A exclusão é um sintoma que confirma o maior mérito do filme do diretor Lee Daniels. A “mídia” – revistas, filmes, TV, moda... – não vê pessoas como Sidibe. Porque acredita que nós, o público, não queremos ver. Assim como não desejamos ver famílias miseráveis, bebês sendo maltratados e passando fome, abuso, incesto, gente feia – por dentro e por fora.

E é isso tudo que “Preciosa” mostra. Não é fácil de assistir, nem agradável, e houve quem acusou o filme de estereotipar a comunidade negra. Porque é difícil admitir que casos como o do filme realmente aconteçam – e se ocorrem, por que tocar no assunto, por que não ignorar? Ao revelar o circo das piores misérias humanas, Daniels caminha na linha entre o corajoso e o explorador, pronto para ser empurrado por uns e segurado por outros.

Essa corda bamba se reflete na sua condução da história de Precious (Sidibe), a adolescente com problemas de aprendizagem, violentada pelo pai e grávida do segundo filho dele, com a conivência da mãe Mary (Mo’Nique) que a culpa – fisicamente – pelo abuso. Encaminhada pela escola para uma espécie de supletivo – o programa “Cada um ensina um” dos EUA dos anos 80, quando se passa a história – a protagonista conhece a beatífica professora Rain (Patton) e outras garotas como ela, passando a acreditar que pode, sim, existir algo melhor.

Daniels abusa de cenas fortes e violentas. Fato. Chega a mostrar uma TV sendo jogada do alto de uma escada em uma pessoa segurando um bebê. Haja estômago. Mas é nos momentos mais sutis, nos offs de Precious, nos seus erros gramaticais, na voz que quase não sai de Sidibe, que o filme soa mais verdadeiro e tocante. A cena em que ela olha para o espelho e sonha com uma garota loira e magra é de partir o coração, além de dizer mais do que toda a falta de sutileza, chocante ou berrante, do cineasta. Conte ainda nas falhas algumas montagens musicais que arrastam o filme e deixam sua temporalidade meio confusa – sinais da falta de experiência do diretor de segunda viagem.

Que ainda assim Daniels consiga tornar palatável esse show de horrores sadomasô e afirmar esperança com ele é graças a duas mulheres. Mo’Nique, que vai ganhar (merecidamente) o Oscar por uma cena em que traz à vida o monstro mais assustador da década, sem ajuda de CGI; e Gabourey Sidibe que, basta assistí-la em qualquer talk show para comprovar, entregou a melhor atuação jovem feminina do ano. Mesmo que a Vanity Fair não reconheça isso.

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Você pode não querer olhar. Mas elas existem.

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