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The road movie

27.04.10

por Daniel Oliveira

A estrada

(The road, EUA, 2009)

Dir.: John Hillcoat
Elenco: Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee, Charlize Theron, Robert Duvall, Guy Pearce, Molly Shannon, Garret Dillahunt

Princípio Ativo:
a cumplicidade de Mortensen e Smit-McPhee

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Sabe aqueles filmes divertidos e positivos, que fazem você sair do cinema com um sorriso no rosto, acreditando em paz, amor e unicórnios? “A estrada” não é um deles. “A estrada” é um longa com diálogos como:

- A gente vai morrer de fome agora?
- Não. Você acha o que? Que vai cair duro no chão e morrer? Não é fácil assim. Morrer de fome dói e demora muito mais.


E isso é um Filho (Smit-McPhee) perguntando e o Pai (Mortensen) lhe respondendo. Os dois são os protagonistas do livro homônimo de Cormac McCarthy, atravessando o mundo devastado por um apocalipse nunca explicado. Após a morte da Mãe (Theron), eles buscam o litoral - a última esperança em um mundo frio, cinza e hostil.

A fotografia de Javier Aguirresarobe transforma a visão pós-apocalíptica de McCarthy em um universo monocromático, variando entre o cinza e um marrom sem vida. A ausência de cores complementa um cenário sem plantas, animais, flores, dominado pela sujeira e pelo caos causado pelos seres-zumbis (muitos dos quais se tornaram canibais) em sua busca por (qualquer) comida.

Pai e Filho sobrevivem saqueando casas e armazéns abandonados – e a preocupação do menino é sempre saber se eles ainda são os “caras bons”. A preocupação do homem é manter-se vivo para cuidar do Filho, cujo rosto é a única esperança que o filme oferece em suas quase duas horas. O Pai sabe que, naquele mundo, não há mais “bons” e “maus”, somente “nós” e “eles”. E em caso de confronto, só restará um.

Esse deprimente mundo novo do diretor John Hillcoat, sem cor nem luz, é contrastado com o calor dourado e aconchegante dos flashbacks com a Mãe. E nada melhor que a beleza de Charlize Theron para representar a nostalgia inocente e frágil do mundo pré-apocalipse. Ela é o Passado, enquanto o Pai é a coragem seca e resignada do Presente e o Filho é a esperança de algo bom no Futuro (a assustadora semelhança entre McPhee e Theron, aliás, cria um interessante paralelismo entre passado e futuro).

É a insistência do menino em preservar noções de bondade e em acreditar na boa vontade dos outros que fazem a luta de seu Pai valer a pena - mesmo que, para o bem do Filho, ele não possa imitá-lo nem ao menos reconhecer isso. Apesar de McCarthy mais uma vez escrever que a maldade é inerente a todos nós – só muda a forma como a usamos – o cerne do filme é essa relação entre Pai e Filho. E Viggo Mortensen e Kodi-Smit McPhee criam uma cumplicidade de arrancar lágrimas do mais cínico.

Mesmo com o elenco e visual impecáveis, o longa de Hillcoat não é uma obra fácil. O filme é um road movie through hell que faz “Eu sou a lenda” parecer uma voltinha no carrossel. É uma Estrada de angústia e sofrimento, mas quem sobreviver a ela vai sair do cinema enxergando as cores que há tempos não percebia que estavam lá.

Mais pílulas:
- Ensaio sobre a cegueira
- Filhos da esperança
- Distrito 9
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Sim, Viggo, parece muito, mas (Lust, Caution) NÃO É a Charlize Theron.

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