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Tudo pelo meu filho

04.05.10

por Daniel Oliveira

Mother - a busca pela verdade

(Madeo, Coreia do Sul, 2009)

Dir.: Joon-Ho Bong
Elenco: Hye-Ja Kim, Bin Won, Ku Jin, Yoon-Jae Moon, Mi-sun Jun, Young-suck Lee, Mun-hee Na, Woo-hee Chun

Princípio Ativo:
amor de mãe

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Ser mãe é tirar a verdadeira licença para matar. Ser mãe te dá o direito de ser obsessiva, agressiva, louca, inconveniente, desesperada, desagradável, intolerável... de dar um tiro. De mentir. Ou roubar. Há um perdão implícito para o que mais for preciso durante a jornada materna. Simplesmente porque, ao seu final, o resultado é um ser humano – e, para que ele seja decente, tá valendo qualquer coisa. Trata-se de uma missão altamente perigosa. Mães são os verdadeiros 007.

O diretor e co-roteirista Joon-Ho Bong canaliza essas características para a busca implacável pela verdade, típica de um detetive noir, que é no que ele transforma sua protagonista-título. A Mother (ela não recebe outro nome, arquétipo que é) de seu filme deve provar a inocência do filho, Yoon Do-Joon, acusado de matar uma garota. Ele aparenta certa deficiência mental, mas para ela, isso não importa. Que Do-Joon fosse visto como culpado seria prova de seu fracasso pessoal: o filho é sua vida. Ele é parte dela – é ela.

Essa relação-identificação entre os dois é o centro de “Mother – A busca pela verdade” e é seu maior trunfo. Além de espelhada nas cenas em que a protagonista visita o filho na prisão e eles se encaram pelo vidro, ela será encurtada, alongada e analisada pelo roteiro de Bong e Eun-kyo Park, cujo objetivo é descobrir até onde ela vai.

É por ela que a Mãe vai fazer o que for preciso, incluindo inevitavelmente se ferir (o que a cena inicial já antecipa), para desvendar o estranho crime. A trama noir, melodramática por definição, é um mero cenário para o desenvolvimento e transformação da relação entre a protagonista e Do-Joon. Cheia de reviravoltas e personagens secundários que servem apenas para movê-la, a história tem esse aspecto emoldurador visualizado na bela fotografia de Kyung-Pyo Hong. Os personagens são sempre enquadrados por belas tomadas do ambiente que os cerca, prensados entre linhas retas que determinam o espaço em que vivem – e, em última instância, quem eles são e o que devem fazer.

Algumas cenas são desnecessariamente exageradas e alguns diálogos dispensáveis – a cena final entre Mother e Do-Joon, por exemplo, seria muito mais forte sem a última fala dele. Mas, assim como em “O hospedeiro”, Bong nos surpreende ao jogar personagens de carne e osso em estruturas de gênero, subvertendo-as. Encontrando as emoções sujas, complexas e desagradáveis que se escondem sob seu verniz gasto.

Essa é a verdadeira busca pela verdade. E é na bela performance de Hye-ja Kim no papel-título que o diretor a encontra. Por mais que no terço final do filme doa tanto, que chegamos a preferir que ele não tivesse.

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Imagem e semelhança.

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