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Morte(o) e todos os seus amigos

27.05.10

por Daniel Oliveira

Quincas Berro D’água

(Brasil, 2010)

Dir.: Sérgio Machado
Elenco: Paulo José, Marieta Severo, Mariana Ximenes, Flávio Bauraqui, Luís Miranda, Frank Menezes,Vladmir Brichta, Walderez de Barros

Princípio Ativo:
a Bahia farsesca e medieval de Jorge Amado

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As três melhores coisas de “Quincas Berro D’água” não são nenhuma novidade:

1- O humor sujo, irreverente e subversivo do texto de Jorge Amado.
2- Os talentos incontestáveis e onipresentes de Paulo José, que se destaca mesmo interpretando um morto, em silêncio na maior parte do filme; e Marieta Severo, que arranca risadas com seu sotaque baianhol, aparecendo bem menos do que devia.
3- A sequência de créditos, inicial e final, inspirada nas antológicas aberturas de Saul Bass para os filmes de Hitchcock.

Fora isso, o longa do diretor Sérgio Machado esbarra em uma série de pequenos problemas de realização. Eles tornam os momentos realmente divertidos uma boa colheita no meio de muito joio. Baseada no livro “A morte e a morte de Quincas Berro D’água”, a história segue o cadáver do título (Paulo José), que a família quer enterrar e a entourage da boemia quer levar para a gandaia, honrando os anos de esbórnia do falecido.

Os pontos altos de “Quincas” são o choque entre família e amigos, que Jorge Amado usa para fazer um retrato crítico (e hilário) dos contrastes da sociedade baiana – conservadora e subversiva, religiosa e boêmia. As cenas do velório, especialmente, são uma farsa medieval digna de Dante. A história é bastante influenciada pelo humor da Idade Média - subvertendo e invertendo valores como vida e morte, paganismo e religião, corpo e alma - resumido pela fala de Quincas “A minha morte foi mais divertida que a vida de muita gente”.

A recorrência excessiva a falas como essa, na narração em off, marcam ao mesmo tempo a qualidade do fluxo de consciência do texto de Amado e as deficiências da direção de Machado. O humor também devia vir da encenação e ela é deficiente, transitando entre o teatral (a mesma sequência do velório), um esquete fraco dos Trapalhões (o roubo da galinha) e o vaudeville requintado de Billy Wilder (a confusão na cadeia).

Essa inconstância é claramente sentida no ritmo de “Quincas” e dá a impressão, em alguns momentos, de que os personagens (especialmente os quatro amigos) não sabem pra onde vão ou o que querem. Com isso, o filme se arrasta, especialmente no ato final que dá uma atenção exagerada para a irritante Vanda, filha do protagonista interpretada por Mariana Ximenes (cujo sotaque baiano some e aparece sem muita explicação).

Algumas cenas são claramente dispensáveis, como a discussão do que fazer com a galinha, e se excluídas dariam ao filme o ritmo ágil e contagiante dos livros de Amado. Sem ele, restam a adequada trilha musical; a mesma Salvador de “Cidade Baixa”, autêntica nos cheiros e cores, encarnada na fotografia de Toca Seabra e na direção de arte de Adrian Cooper; e algumas piadas com gases dignas de besteirol norte-americano. Mas que vão te fazer rir mesmo assim.

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Parafraseando Tina Fey, “não é chuva, é Jorge Amado chorando pelo cinema nacional”.

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