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Tanto quanto dar errado

29.07.10

por Igor Costoli

Tudo pode dar certo

(Whatever works, EUA/França, 2010)

Dir.:Woody Allen
Elenco: Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, Ed Begley Jr., Michael McKean, Henry Cavill

Princípio Ativo:
Mau humor sincero e de coração

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A história de “Tudo pode dar certo” me fez pensar em Woody Allen. O protagonista, Boris, é um misantropo que não perde uma oportunidade de reclamar das pessoas, de questionar costumes, além de ser dono de um mau humor grosseiro e, por isso mesmo, engraçado. Se em muitos de seus filmes o roteirista e diretor curte emprestar a própria cara e voz para suas antipatias, aqui ele escala Larry David para ser, ao mesmo tempo, o que ele costuma fazer e o que as pessoas acham que ele quer dizer com seus filmes.

Quando Boris conhece Melody (Rachel Wood), uma jovem ignorante a quem ele precisa explicar até mesmo as mais óbvias ironias, Allen parece debochar de seu próprio gosto por mulheres muito mais jovens. Melody é burra, Boris é um gênio e, na lógica, isso nunca funcionaria como um casal. But works...

Qualquer coisa pode dar certo, além de ser uma tradução mais fiel, é a brincadeira que leva o longa adiante. Montado e enquadrado um pouco como teatro filmado, e carregado em certos exageros, o filme funciona por essa balança entre sequências plausíveis e aquelas que só poderiam acontecer em um filme – de Woody Allen. E nessa mistura, como naquele velho ditado, dos problemas pode vir algo bom (Boris e Melody se casam). E da felicidade, problemas podem aparecer (em dobro ou triplo).

Allen é considerado um gênio do cinema. Mas ele não está preocupado em fazer (exemplo recente) um “Match Point” toda vez que for para trás das câmeras. Cinema, entretenimento, não precisa reinventar a roda a cada 90 minutos de película - e é assim que ele o trata. A cada ano ou dois, o cineasta entrega simplesmente uma história bem contada, diálogos ágeis e um “je ne sais pas quois” inteligente no roteiro.

É algo bem interessante sobre o cineasta: ele é um cara que gosta de trabalhar. Poderia ser como seus pares – você sabe quem, aqueles outros gênios do cinema que ainda estão por aí andando na terra – e apenas curtir suas férias, viver da fama ou esperar contratos milionários para colocar seu nome na direção de alguma bobagem, cinebiografia ou adaptação literária. Mas não, ele gosta de trabalhar, de fazer SEUS filmes.

É o operário que gosta de ver um trabalho pronto. Você se cativa por um personagem grosseiro e irritante, que trata mal a esposa mesmo depois de gostar dela. Aceita a burrice de Melody como parte dessa engrenagem bizarra. E acredita piamente na ignorância e conservadorismo dos pais dela – claro, são os personagens mais críveis desse mundo. Por esse ângulo, “Whatever Works” é um filme que funciona.

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Você sorri meio filme. Ri outra metade. Mas esta parte é de gargalhar.

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