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Qual a palavra mais terrível que você pode imaginar?

16.08.10

por Daniel Oliveira

Brilho de uma paixão

(Bright star, Reino Unido/Austrália/França, 2009)

Dir.: Jane Campion
Elenco: Ben Whishaw, Abbie Cornish, Paul Schneider, Kerry Fox, Edie Martin, Thomas Sangster

Princípio Ativo:
amor romântico

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“Para sentir, e sempre, o seu tranquilo arfar,
Desperto, e sempre, numa inquietação-dulçor,
Para seu meigo respirar ouvir em sorte,
E sempre assim viver, ou desmaiar na morte.”


Ah, o amor romântico. Exagerado, etéreo, imaturo, inconsequente, irreal, sem limites. O maior mérito do “Brilho de uma paixão” da neozelandesa Jane Campion é capturar, em película, o impacto do choque de dois mundos em rota de colisão inevitável, cujo resultado é a “estrela brilhante” que é esse sentimento puro, sem materialidade, da poesia do século XIX.

Os dois mundos, aqui, são o do poeta inglês John Keats (Whishaw), um pé-rapado sonhador e de saúde frágil, e de Fanny Brawne (Cornish), a jovem burguesa pragmática e de personalidade forte que se torna sua musa. Os dois se conhecem em 1818 e iniciam uma relação – tão proibida e impossível quanto intensa e trágica (os quatro vértices básicos do amor novecentista) – que inspirou Keats e fez dele um dos maiores poetas românticos da língua inglesa.

Adaptando a biografia escrita por Andrew Motion, por sua vez compilada das cartas e poemas do bardo para sua amada, Campion faz de seu filme um casamento perfeito entre o texto e o imaginário romântico. A fotografia de Greig Fraser abusa do verde e detalhes de flores e da natureza, transformando em cinema o repertório imagético bucólico-romântico. O plano em que uma abelha “corteja” uma flor logo após Keats “cortejar” Fanny é de uma beleza simples e sutil.

Já o figurino de Janet Patterson ressalta a complementaridade dos dois amantes. Ela, que costura e customiza suas próprias roupas (quase uma Lady Gaga de seu tempo), usa vestidos chamativos e coloridos, em tons de rosa e azuis românticos. Ele, em contraponto, está sempre em ternos sóbrios, variando entre o branco, preto e azul - um espírito depressivo, introspectivo e atormentado, esperando para ser preenchido pela vida e paixão de sua musa.

A trilha de Mark Bradshaw, por fim, é contida e pontual. O longa é marcado pelos silêncios, dando ao espectador – talvez como nunca antes em um filme – a sensação de como era viver no século XIX. A modorra, a inércia, o isolamento rotineiro e sem eventos de uma sociedade pré-urbana. Mas, acima de tudo, o silêncio, de onde brota o amor entre os dois protagonistas, que não precisam dizer muito, só se olharem, para que o espectador perceba a tonelada de sentimentos transitando de um para o outro.

“Brilho de uma paixão” é o filme que chega mais perto de mostrar tão bem quanto um poema como esse amor preenchia o ‘nada’ da vida dos jovens do século XIX – explicando por que ele era tão “tudo ou nada”, “vida ou morte”. É um amor que rima com dor, mas não de uma forma óbvia (na atuação de Abbie Cornish); e no qual mágico rima com trágico, sem jamais ser piegas (na performance de Ben Whishaw). É romântico, da época em que isso (assim como mandar flores) ainda significava alguma coisa.

Mais pílulas:
- Pessoas são lugares, o amor é um tempo
- Desejo e reparação
- Romance
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Tão perto, tão longe, tão perto.

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