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A primeira faz tchan...

15.06.05

por Daniel Oliveira

Bendito Fruto

(Brasil, 2005)

Dir.: Sergio Goldenberg
Elenco: Otávio Augusto, Zezeh Barbosa, Vera Holtz, Lúcia Alves, Camila Pitanga, Eduardo Moscovis, Evandro Machado, Enrique Diaz

Princípio Ativo:
Um elenco afinado

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Quando escutei o CD do Keane, eu pensei: “nossa, é bom...mas Coldplay é tão melhor!”. Complicadas essas situações em que é quase impossível não comparar, né? Foi assim quando acabou a sessão de “Bendito fruto”. O filme não é ruim, mas com o tipo de história e o tom adotado pelo diretor, estreante em longas, Sergio Goldenberg, eu só pensava: Almodóvar faria disso um filmaço.

Maldade usar como modelo um dos diretores mais consagrados da atualidade, admito. Mas é inevitável. Otávio Augusto é Edgar, um cabeleireiro que vive com Maria (Zezeh Barbosa) sem assumir o relacionamento. No seu salão trabalham Choquita (Camila Pitanga), uma manicure funkeira e Telma (Lúcia Alves), uma solteirona. A vida deles é sacudida por Virgínia (Vera Holtz), uma amiga de colégio de Edgar, que chega ao Rio de Janeiro, é atingida por uma tampa de bueiro (história absurda, que aconteceu de verdade) e resolve “investir” no cabeleireiro. Completando a trama, o filho de Maria, Anderson (Evandro Machado), DJ que namora Marcelo Monte (Eduardo Moscovis), galã de novela.

Personagens diferentes, usados por Goldenberg em um novelão cômico, que encontra contraponto na novela que é protagonizada por Marcelo e acompanhada pelas personagens do elenco. Além do folhetim, existem várias referências popularescas – música de pagode embalando os desencontros de Edgar e Maria, revistas de fofoca e programas policiais de rádio – dando o tom caricato do longa. A direção de arte colabora com decorações kitsch nos cenários e roupas coloridas, assim como a fotografia, que abusa dos closes novelescos.

“Bendito Fruto” passa seu recado facilmente, atirando nos preconceitos de cor, gênero e do próprio cinema que, no Brasil, às vezes assume ares elitistas, esquecendo que a sétima arte é, historicamente, popular. Goldenberg não perde o fio da meada com tantos personagens, mas também não explora o máximo deles, como a funkeira Choquita, por exemplo. Em algumas cenas, ainda fica um certo gosto de “quero mais” - quando Edgar e Maria dançam “Linha do Horizonte”, clássico brega cantado por Luiz Melodia, você tem a impressão de que um diretor mais experiente teria rendido bem mais risadas.

O filme funciona devido ao elenco, com destaque para Lúcia Alves e Vera Holtz, impagáveis. Um roteiro um pouco mais bem acabado, que não deslanchasse tanto para o dramalhão e passasse uma boa rasteira, daquelas que Almodóvar sabe dar com perfeição em seus filmes, faria “Bendito fruto” imperdível. A trama tem um final de novela, perdendo a chance de completar a subversão que promove, ao colocar um casal de protagonistas totalmente fora dos padrões, por exemplo. Parece que a crítica se rendeu ao seu objeto.

No final das contas, minha divagação no dia seguinte ao Keane também vale para Sérgio Goldenberg: “é só o primeiro trabalho. Imagina o que mais ele pode fazer...”

Otávio, Zezeh e seus belos tórax

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