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Molho amargo

01.08.05

por Rodrigo Campanella

Água negra

(Dark Water, EUA, 2005)

Dir.: Walter Salles
Elenco: Jennifer Connelly, John C. Reilly, Tim Roth, Dougray Scott

Princípio Ativo:
Silêncio

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Se Walter Salles fosse um sujeito muito irônico, talvez lançasse no fim do ano um kit “Faça você mesmo seu ‘Água Negra’”. Seria mais ou menos assim:

1. Assuma o papel de um grande executivo de Hollywood: óculos escuros, valise prateada, conhecimento zero de cinema.
2. Contrate um diretor estrangeiro com bom prestígio no momento para dirigir um subgênero em rápida decadência, como a refilmagem de filmes de horror japoneses.
3. Deixe que ele transforme (com bastante habilidade) o filme de terror em um drama e sub-exponha um pouco a película no processo de revelação, para que a maior parte da imagem seja negra, imersa em sombra.
4. Não abra mão do item “finais falsos em seqüência”.
5. Veja os primeiros pedaços do filme pronto e saia berrando hecatombes de insatisfação.
6. Force o diretor a acrescentar mais algumas cenas de susto barato para “incrementar a tensão”.
7. Assista novamente e comece a berrar “isso não é um filme de terror, vamos transformar em suspense!”.
8. Sub-exponha por contra própria ainda mais a película, acrescente uma trilha sonora explicativa de choros e sustos e experimente novamente.
9. Tenha certeza de que realmente não é um suspense e decida então investir no drama.
10. Acrescente uma trilha sonora pré-fabricada para o Supercine, sem perder o tal lado explicativo.
11. Asse o filme por algumas horas na sala de edição de som, aumentando o volume da música toda vez que a possibilidade de EMOÇÃO! aparecer na tela.
12. Acelere a edição cortando a maior parte do silêncio visual ou sonoro.
13. Sirva pela última vez. Com molho madeira.

Não deve ter ficado muito longe disso a realidade de como foi a produção de Água Negra. Verdade seja dita, Walter Salles parece não assumir o trabalho para o qual foi contratado: fazer um filme de suspense/terror. Decide enfocar o drama da mãe que, após uma dura separação, tenta manter a custódia da filha se mudando para um prédio caindo aos pedaços num bairro suburbano de Nova York. O fato é que no tal apartamento, uma goteira negra insiste em inundar o quarto, sinal de que algo não muito bom aconteceu e continua vagando por ali.

Connelly não poderia ter sido melhor escolhida para o papel da fragilizada Dahlia, a mãe. Sua insistência em não olhar nos olhos diz muito. O grande problema no todo parece ser a falta de espaço para eco. Preenchido por ‘eventos’ acontecendo a todo minuto e com a horrível trilha tomando o fundo, as figuras visuais que Salles constrói com tanto cuidado acabam ficando mudas. No room for echo , ele pode ter pensado vendo o filme pronto, com toda razão.

“Lá vem o moço da edição cortar a gente de novo”

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