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Quem falou em Hollywood?

14.10.05

por Daniel Oliveira

O jardineiro fiel

(The constant gardener, EUA/Inglaterra, 2005)

Dir.: Fernando Meirelles
Elenco: Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Hubert Koundé, Danny Huston, Bill Nighy, Pete Postlethwaite

Princípio Ativo:
Fernando Meirelles Made in Africa

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Há uma cena fundamental em “O jardineiro fiel”: a idealista Tessa (Rachel Weisz, de “Constantine”) pede ao diplomata Justin (Ralph Fiennes, de “Dragão vermelho”), que a leve com ele para a África. Ele ensaia uma resposta “diplomática”, de que eles se conhecem há pouco tempo - discurso frio, que ela corta em poucos segundos com uma frase significativa: “Você pode aprender sobre mim, lá”.

Essa cena sintetiza os personagens – Tessa é impulsiva, cheia de paixão; Justin é contido, racional e diplomático – e representa o trunfo do diretor Fernando Meirelles em “O jardineiro fiel”, que tinha tudo para ir direto para as “Telas mornas” da vida. O cineasta não foca em uma “conspiração global”, mas em seus protagonistas – no homem que é obrigado a sair do seu “jardim” para descobrir a mulher que ama.

Justin é um diplomata inglês que conhece a ativista Tessa, durante uma palestra. Eles se apaixonam e pouco tempo depois, ele é enviado à África. Os dois se casam e, enquanto Justin cuida mais do jardim do que dos afazeres diplomáticos, Tessa se infiltra nas favelas do Quênia, ao lado do médico Arnold (Hubert Koundé), investigando irregularidades da indústria farmacêutica no continente. Quando ela é assassinada, seu marido é obrigado a sair de seu comodismo, para desmentir a versão oficial de que Tessa teria sido morta por Arnold, que seria seu amante.

A fotografia de César Charlone (Cidade de Deus), acompanhada por ótima trilha e edição, retrata a miséria africana, sem fazer dela um espetáculo, e sua câmera tensa e inquieta acaba com as unhas do espectador. Weisz é uma Tessa impetuosa e doce, apaixonada e dúbia, que pode estar enganando seu marido ou não. Ralph Fiennes sua, corre e sofre, como um ator e não um “astro”. A trama do livro de John Le Carré – em que o roteiro é baseado – convida a ir além da superfície, como o jardineiro que precisa revolver a terra.

Coroando esse conjunto, o diretor equilibra thriller e drama como um veterano. A intimidade desajeitada da cena de sexo entre Justin e Tessa, ou a seqüência em que o protagonista visita sua antiga casa, enquanto Weisz narra uma carta emocionante são momentos que Sidney Pollack daria a alma para ter em “A intérprete”.

Assim como “Hotel Ruanda”, o filme mostra um continente abandonado pelas potências mundiais. Quando um personagem diz, sem remorso, que “não estamos matando ninguém que não fosse morrer de outra maneira”, ressoa uma afirmação do outro filme de que “pretos africanos não rendem votos”. Justin é como o sujeito que ligava para o “Criança Esperança” e achava suficiente. De repente, mergulha na pobreza e vê que o buraco é bem mais embaixo. Ele aprende isso ao “aprender” Tessa. Nós somos o público obrigado a achar “A intérprete” bom, mas ao assistir a “O jardineiro fiel”, vemos que o topo é bem mais em cima. E, é muito bom dizer, aprendemos isso com um brasileiro, Fernando Meirelles.

O jardineiro é fiel, mas será que ela é?

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