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Pior que história da carochinha

12.10.05

por Daniel Oliveira

Os irmãos Grimm

(The brothers Grimm, EUA/Rep. Tcheca, 2005)

Dir.: Terry Gilliam
Elenco: Matt Damon, Heath Ledger, Monica Bellucci, Lena Headey, Tomás Hanák

Princípio Ativo:
Um belo cenário vazio

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É feio apontar o dedo. Minha mãe me ensinou isso em pequeno. Mesmo assim, no caso de “Os irmãos Grimm”, não dá: como fazer um filme com uma premissa interessante, astros em ascendência, diretor talentoso, orçamento de nove dígitos e, de quebra, Monica Bellucci, dar errado? A culpa é do roteirista Ehren Kruger, o mesmo de “O chamado”, a sua sequência e “A chave mestra” .

Era quase impossível ser ruim. Quase. Terry Gilliam (Medo e delírio) dirige a história dos irmãos Will (Matt Damon) e Jacob Grimm (Heath Ledger, de “Devorador de pecados”), os famosos contadores de histórias, que sobrevivem na Europa do século XVIII derrotando demônios, bruxas e monstros que eles mesmos inventam. Pura picaretagem. Os dois usam a fama para fazer dinheiro, encher a cara e dormir com mulheres. Até encontrarem o mistério de uma floresta, onde uma série de garotinhas tem desaparecido e uma rainha Má (Monica Bellucci, de “Matrix Revolutions”) está adormecida.

A direção do ex-Monty Python Terry Gilliam é boa, o que se comprova no timing cômico da dupla de protagonistas, que segura grande parte do filme. Em especial, ele consegue uma atuação convincente de Ledger. Sua construção de Jacob, traumatizado e reprimido pelo irmão, chega a ser mais interessante que a de Damon, que encara um malandro fanfarrão, diferente de seus personagens habituais. A parte visual também não deixa a desejar, com uma fotografia que mistura as cores berrantes dos contos de fadas ao clima sombrio da floresta, uma direção de arte impecável, efeitos especiais bem resolvidos e figurino idem.

Então, o que há de errado? Uma coisa: a história. É incrível que um filme sobre contar histórias – aliás, algumas das mais contadas de todos os tempos – tenha um roteiro óbvio, superficial e com clichês tão batidos. O (ir)responsável Ehren Kruger aposta na mesma receita do segundo “Chamado” e de “A chave mestra”, criando personagens sem profundidade e enchendo o enredo com diálogos fracos, cenas de ação matematicamente localizadas e um final com reviravoltas mirabolantes e desnecessárias. Ao invés de explorar o histórico de Will e Jacob, que é sugerido no começo do filme e extremamente mal aproveitado, Kruger se debruça, literalmente, no conto da carochinha da floresta e sua bruxa. O triângulo amoroso dos dois irmãos com a bela Angelika (Lena Headey), que perdeu pai e irmãs na floresta, é a cereja no bolo de clichês.

Nesse meio tempo, boas cenas, como o exorcismo armado pelos irmãos no início do longa, são perdidas, junto com o interesse do público. Tudo porque Ehren Kruger esqueceu de algo muito importante: o que assusta em uma boa história não são sustos planejados, mas a forma como ela é (bem ou mal) contada. E desculpem-me mas, nesse caso, eu aponto o dedo, sim.

Figurinos: impecáveis, sim. Confortáveis...

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