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Estar sendo. Ter sido.

25.10.05

por Rodrigo Campanella

A Noiva-Cadáver

(Corpse Bride, EUA/2005)

Dir.: Tim Burton e Mike Johnson
Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham-Carter, Emily Watson, Albert Finney, Christopher Lee

Princípio Ativo:
de morte

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Sei muito menos sobre Tim Burton, o homem por trás do diretor, do que qualquer jornalista da revista Caras. Sei muito pouco, mesmo. O que conheço são os filmes e, por vias tortas, uma ou outra notícia mais pessoal. Sinceramente, não sinto necessidade de conhecer muito mais. Mas duas coisas são indispensáveis entre as que eu sei: Burton foi pai, pela primeira vez, em 2003, na época em que filmava Peixe Grande. E Tim Burton morreu.

O próprio Peixe Grande já é mais do que estampado o anúncio de morte. A maior impressão ao fim daquele filme é a de que Burton em algum momento das filmagens sentou em alguma escada cenográfica e ficou chorando a tarde toda. Contar histórias, contar ilusões, isso é o cinema e, por tudo que é belo, também não deixa de ter seu lado triste: viver das fantasias dos outros. Sob a lupa de Peixe Grande, isso faz bastante sentido.

A Noiva-Cadáver chega na carreira de Burton exatamente junto do blockbusterizado A Fantástica Fábrica de Chocolates. Ambos só confirmam a tese de que Burton morreu. E a grande sorte que a morte pode ser.

Tim Burton, ossos e veias, deve continuar bem e serelepe nos seus EUA enquanto essas linhas são escritas. Mas Burton, o homem, não é e, pode-se apostar, nunca mais será o mesmo. A Noiva-Cadáver parece servir em certo sentido de profissão de fé e explicação do diretor sobre seu cinema: olhar a morte, passar pela morte, chegar à vida. Passar pelo luto para seguir em frente.

Luto é o que enfrenta a contragosto Victor Van Dort, o noivo. Em plena era vitoriana, conhece a noiva de seu casamento arranjado na véspera do dia marcado. Por sorte apaixona-se por ela mas se atrapalha com o ensaio dos votos de casamento. Ao ir ensaiar as frases na floresta, acaba despertando e desposando uma noiva assassinada. A noiva-cadáver leva Victor à nova casa, o mundo dos mortos, mas tem de enfrentar suas tentativas de voltar ao mundo vivo para encontrar Victoria, a noiva verdadeira.

A base para Noiva-Cadáver é um pequeno conto folclórico russo escolhido pelo próprio diretor. Somado a isso Burton resgata, na figura de Victor, seu biográfico “Vincent”, personagem-título de um famoso curta de 82.

Com apenas 78 minutos, a Noiva... deixa de lado maiores complexidades para manter o caráter de fábula. Contribui para sustentar isso o grande trabalho de cor e som, características cada vez mais caras a Burton. E, é claro, aqui o mundo dos mortos é bem mais colorido e iluminado que o mundo dos vivos e ainda tem sabor de jazz. É a pequena obra-chave de um homem que foi embora, para continuar mais vivo e fiel à sua arte do que nunca.

E com vocês, a noiva-cadáver: difícil mesmo é entender como ele conseguiu não se apaixonar por ela.

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