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Los Angeles – Cidade proibida

06.03.06

por Daniel Oliveira

Crash - no limite

(Crash, EUA/Alemanha, 2005)

Dir.: Paul Haggis
Elenco: Don Cheadle, Matt Dillon, Sandra Bullock, Brendan Fraser, Ryan Phillippe, Terrence Howard, Thandie Newton

Princípio Ativo:
Intolerância

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Na primeira vez em que fui ver “Crash – no limite”, cheguei ao ponto e o ônibus para o shopping estava passando direto. Corri e dei sinal para pará-lo – se perdesse aquele, me atrasaria para a sessão – mas o motorista não parou. Quem mora em BH, conhece a situação. Naquele momento, canalizei o ódio de anos de mau atendimento para um único condutor e que bom que ele não estava na minha frente.

Guardadas as devidas proporções, é o que um pequeno incidente caseiro foi para Jean (Sandra Bullock). Na manhã seguinte a um assalto, ela confidencia a uma amiga no telefone que ainda está com raiva. Mas não é pelo roubo. Ela tem ódio do jardineiro, da empregada, do tintureiro. “Eu acordo todos os dias morrendo de raiva, de tudo e de todos, e não sei por quê” é mais ou menos o que ela diz.

O escorregão de Jean depois dessas palavras acontece com os vários personagens de “Crash”. Escrito e dirigido por Paul Haggis, roteirista de “Menina de Ouro”, o longa trata Los Angeles como um microcosmo, onde as pessoas não se tocam, não se conectam umas com as outras, e por isso mesmo vivem se esbarrando – o crash do título – para se sentir vivas. Palavras de um dos personagens. É sobre a intolerância e suas exteriorizações “cotidianas”: violência, racismo, abuso de poder...

São dois dias de histórias interconectadas. Jean e o marido Rick (Brendan Fraser), promotor, são assaltados por Peter (Larenz Tate) e Anthony (Ludacris Bridges). Preocupado com sua reputação junto à comunidade negra, Rick tenta fazer do caso de corrupção policial, investigado pelos detetives Graham (Don Cheadle) e Ria (Jennifer Esposito), um emblemático exemplo de racismo contra um policial negro. Jean desconta a raiva no chaveiro mexicano Daniel (Michael Pena), que troca as fechaduras de sua casa. Ele ainda tem que agüentar a impaciência do persa Farhad (Shaun Toub), que não entende que é sua porta que está estragada e não a fechadura. Enquanto isso, Graham lida com a mãe drogada e o irmão desaparecido. Seu colega Ryan (Matt Dillon) se irrita com o plano de saúde do pai e, ao parar o casal Cameron (Terrence Howard) e Christine (Thandie Newton), abusa da moça ao revistá-la, enojando seu parceiro Hanson (Ryan Phillippe).

“Crash” tem um início de longos planos. A câmera acompanha os personagens, esperando a catarse anunciada. E quando ela explode, os cortes aceleram, a luz do sol queima o rosto dos atores, aquecendo ainda mais cenas já em ebulição. Luz que, ao final, é sublimada por uma neve inesperada em LA.

Assim como em “Menina de Ouro”, o roteiro de Haggis leva personagens e público à catarse. Algumas das conclusões são piegas – a própria Jean, por exemplo. E o final ressoa demais “Magnólia”, com a câmera passeando pelas histórias, ao som da música-tema. Mas os diálogos e o sofrimento escritos por Haggis até aí valem a pena.

Thandie, Dillon e o horror de ser tocado em Los Angeles

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