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A bolhinha de pus que estoura

12.11.05

por Rodrigo Campanella

Marcas da Violência

(A History of Violence, EUA/2005)

Dir.: David Cronenberg
Elenco: Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris, Ashton Holmes, William Hurt

Princípio Ativo:
enganei um bobo

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“ALUGA-SE Grande estúdio, satisfação garantida” Antes mesmo da estréia de Marcas da Violência no Brasil, alguém já comentava que iam brotar na imprensa comentários mui amigos dizendo que Cronenberg havia se rendido ao cinemão americano e se vendido aos grandes estúdios. Quem disser uma coisa do tipo certamente foi ver o filme com tempo curto e saiu na metade. Este aqui é, na aparência, talvez o filme mais formatado no padrãozinho ‘american way of movie’ de Cronenberg. Daí a força multiplicadora da porrada que ele oferece.

“SERVE-SE Sucrilhos com sangue. Mais hemoglobina para você” Marcas... toma como base uma graphic novel de 1997. Na história, Tom Stall (na hq é Tom McKenna) é homem de família e dono de lanchonete no interior americano. Certo dia, vira herói da mídia ao matar a sangue-frio dois assaltantes em ação. Logo alguns membros do crime organizado chegam à cidade, querendo acertar supostas contas do passado com Tom - segundo eles, um ex-assassino sob nova identidade.

“AULAS PARTICULARES Biologia social avançada. Para iniciantes” Se as obras mais conhecidas de Cronenberg dão a impressão de serem capítulos de um grande livro sobre “O Corpo em Dissolução”, Marcas... pode dar a impressão de um mini-livro da coleção “O que é”. Só impressão. A trilogia imagem-desejo-corpos (em convulsão) está mais firme do que nunca. Aqui, o eixo central é a própria violência, como parte essencial da vida e da carne. A imagem fascinante da violência estende tentáculos pegajosos nada bonitos para a vida de cada um dos personagens. O drama que segue a bala disparada é que toma o primeiro plano.

“VENDE-SE 1 cd com todas as trilhas da Sessão da Tarde. De todos os tempos.” A trilha sonora insistente e adocicada, a cidade montada com a palavra ‘Marasmo’ estampada em cada tábua. Tudo dá impressão de made for tv americano, podendo escolher entre a)filme de doença na família e b)filme de ameaça para a família. Cronenberg e direção de arte, ajudados por um excelente Viggo Mortensen, filmam com alegria singular esse lugar paralisado: os Coen ficariam orgulhosos. E ao injetar a violência nesse cenário-padrão do american way audiovisual, Cronenberg dá sua porrada de luxo em tudo que cinema e tv têm cuspido no estômago do consumidor de imagens em massa.


“COMPRA-SE Jogo da Memória. Pagamento em bala.” Na ciranda da tela se cruzam memória, violência e uma sociedade de imagens. Cada uma envia a outra numa espiral de violência sem fim e dá o recado – admitir a violência ou ser devorado por ela. Nada mal para uma simples história de violência.

“E sem piadinhas envolvendo espadas, hobbits ou coisas do tipo, ok?”

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