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Uma história de violência – parte 2

16.11.05

por Daniel Oliveira

Manderlay

(Dinamarca/Suécia/Holanda/França/Alemanha/EUA, 2005)

Dir.: Lars Von Trier
Elenco: Bryce Dallas Howard, Willem Dafoe, Danny Glover, Lauren Bacall, Chloë Sevigny

Princípio Ativo:
Anti-americanismo latente

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A comparação deve arrepiar os cults de plantão, mas “Manderlay” pode ser comparado à seqüência de outro filme de sucesso, só que hollywoodiano: “Matrix”. Assim como as continuações do longa dos irmãos Wachowski, a obra de Lars Von Trier reafirma as inovações do filme original, mas perde com a ausência do fator novidade e o roteiro bem inferior.

Em “Dogville”, era impossível sair da sala sem refletir por uns bons minutos. Neste, você sai pensando simplesmente o que Von Trier planejou – o que é pouco perto do efeito catártico do petardo anterior. A cena em que Grace cumpre uma decisão da democracia criada por ela mesma, referente a uma velha negra – uma das mais fortes de “Manderlay” - não chega aos pés do poder do primeiro longa.

No segundo capítulo da saga, Grace (Bryce Dallas Howard, de “A vila”) segue com o pai (Willem Dafoe, de “A sombra do vampiro”) após abandonar a tal cidade do cachorro, até chegar em uma fazenda onde a escravidão ainda impera – a tal Manderlay, do título. É bom lembrar que estamos nos EUA e o ano é 1933. A “heroína” da trilogia decide pôr um fim na situação dos negros e ensinar aos miseráveis abandonados a “democracia e liberdade” norte-americanas.

Von Trier domina a técnica desenvolvida em “Dogville”, tanto na direção dos atores no galpão desenhado a giz, quanto nos quesitos técnicos. Ele conta com participações rápidas de Lauren Bacall e Chloë Sevigny, que retornam do longa anterior, em papéis diferentes. De novidade, Danny Glover (Máquina mortífera) é um coadjuvante de peso para a quase-novata Dallas Howard, filha do diretor Ron Howard (A Luta pela esperança), que substitui Nicole Kidman - com competência, sem brilho. Em alguns momentos, a ingenuidade patológica de Grace demanda a voz infantilóide da ex-Tom Cruise, um encaixe perfeito em “Dogville”.

No final, o saldo é negativo para o dinamarquês. Mesmo que o roteiro tenha sido escrito antes da invasão do Iraque, duvido que ele não tenha feito alguns ajustes para realizar uma crítica tão adequada à situação. Aí reside o grande problema: a aversão à política intervencionista norte-americana é quase uma unanimidade. É fácil aderir a ela. Por isso, muitos críticos por aí podem vangloriar o longa por seu conteúdo pertinente, esquecendo de sua qualidade per se. “Manderlay” tem falhas: diálogos forçados, a oscilação de Dallas Howard como Grace e uma falta de ritmo, que só se corrige no final.

E o fim, por sinal, prova - mais uma vez - que “Manderlay” é uma crítica aos EUA extremamente hollywoodiana. Assim como vários filmes do Tio Sam, o longa de Von Trier conta com um final cheio de reviravoltas e revelações bombásticas, amarrando várias pontas soltas do roteiro. Vencendo ou não o inimigo, o cineasta dinamarquês junta-se a eles.

Dafoe e Dallas Howard substituem James Caan e Nicole Kidman

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