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Desgrenhados

26.10.05

por Rodrigo Campanella

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

(Harry Potter and the Prisoner of Azkaban – EUA/2004)

Dir.: Alfonso Cuarón / Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Alan Rickman, Gary Oldman, Michael Gambon, Maggie Smith

Princípio Ativo:
aqueles cabelos

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Não julgar o livro pela capa é a máxima corrente nas histórias de Harry Potter. Seja na forma de poções, enganos, dissimulações ou mentiras deslavadas, esse movimento de descobrir o mundo para além das primeiras impressões acaba sendo o fio condutor dos filmes. Mas o que acaba entrando aqui não é apenas a questão ‘identidade’, mas uma ainda mais interessante – a confiança.

Desconfiança é o que devem ter sentido os fãs dos livros-Potter quando saíram do cinema após assistirem o terceiro filme pela primeira vez. Fóruns irados na Internet e falas em blogs ou no dia-a-dia, na época do lançamento, reclamavam da infidelidade do filme em relação ao livro - cenas cruciais que foram cortadas, outras acrescentadas. Por sorte, os fãs devem ter visto o filme bem mais que uma vez, o que terá aberto a eles alguma chance de entender o que o diretor Cuarón fez pela franquia. E é muito.

Enquanto o quarto filme parece um amadurecimento natural dos dois primeiros, O Prisioneiro de... é a quebra. O que se rompe aqui é uma certa visão ‘adulta’ da adolescência, (adotada por Columbus) onde tudo se tornava, de certo modo, mais iluminado do que realmente foi para quem passou por essa fase (tortuosa) da vida. A visão de Cuarón é bem mais afinada com um possível pré-adolescente vivendo aquilo tudo de dentro – um mundo em estado de monstro.

Toda essa sensação aqui se torna palpavelmente visual, com um universo de imagens calibrado em preto forte e um cenário apinhado de pontas e dobras tortuosas. Essa construção cuidadosa deixa mais clara ainda a importância de ‘confiança’ num mundo onde tudo parece jogar contra você – no caso, Potter e seus amigos.

A trilha sonora parece amadurecer junto e, se não chama a atenção, acaba sendo por isso mais eficiente: nada de músicas pomposas em volume certeiro para esgotar o estoque de lágrimas do espectador, seja de dor ou de raiva.

Com todas as qualidades, O Prisioneiro de Azkaban deixa seus buracos à mostra. O roteiro se atrapalha em montar uma história coesa, seja dentro do Universo Potter ou dentro do próprio recorte de tempo (um ano letivo em Hogwarts) com que trabalha. Ao mesmo tempo, é o filme “de transição” dentro do ciclo adolescente das histórias, o que talvez explique a sensação estranha de work in progress ao fim da sessão. Talvez aqui não haja outro modo de ser fiel à história que vai sendo contada. Assim como os cabelos de Harry ao longo da série, o terceiro filme é o conto de um estado permanente de mutação.

“Calma, calma, ainda tem quatro filmes pela frente, no mínimo!”

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