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Sobre meninas e nocautes

24.01.05

por Daniel Oliveira

Menina de Ouro

(Million Dollar Baby, EUA, 2004)

Direção: Clint Eastwood
Elenco: Clint Eastwood, Hilary Swank, Morgan Freeman.

Princípio Ativo:
A vida não é legal. Nocauteie-a.

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Eu não gosto de boxe. Acho um esporte violento e pouco agradável de se assistir. Uma atração cercada pela fascinação dos EUA pela violência e pelo lucro com ela, tão bem dissecada por Michael Moore. Quando fui ver “Menina de ouro”, esse preconceito me preparava para um “Rocky de saias”. “Menina de ouro” não é sobre boxe. É sobre por que é preciso lutar - por que alguma pessoa resolve nocautear uma outra num ringue, rodeada de gente clamando por cílios rompidos e narizes quebrados em nome de dinheiro.

Maggie (Hilary Swank) é uma aspirante a lutadora, que quer como seu treinador Frankie (Clint Eastwood), cujo melhor amigo é Scrap (Morgan Freeman). São três personagens que caminham em um mundo escuro, perseguindo uma luz inalcançável que corta seus rostos – não é coincidência que, ao final, a salvação de Maggie venha de alguém que sai da luz em meio a um corredor obscuro. No ringue, tentam nocautear a vida, que não deixa nada fácil para eles. As lições de boxe que Scrap enumera na primeira metade do filme são, na verdade, lições de sobrevivência. É o possível e necessário sobre a trama de “Menina de ouro”, para não estragar seu filme.

Sabe, também não sou muito fã de Clint Eastwood. Respeito seu talento e sua carreira, mas seu trabalho nunca esteve entre aqueles que mais mexiam comigo. Para mim, ele sempre teve um certo ranço de representante de um EUA republicano, machista e armamentista. Seus dois últimos filmes, no entanto, são tentativas belas e desesperadas de humanizar o ser violento na origem da barbárie. Eastwood – diretor e personagem – sabe que o desejo pela violência não nascem com o indivíduo, mas são incitados nele pela vida. Era o drama do personagem de Sean Penn em “Sobre meninos e lobos”. No caso de “Menina de ouro”, Frankie estimula essa força em Maggie; e o diretor apresenta uma redenção para ela.

Os personagens são apresentados de forma crua e honesta, sem melodrama – grande parte do filme é sem trilha. O cineasta torna difícil você julgá-los - são pessoas, ainda que extremamente reais, que parecem distantes, com “uma única chance na vida”, como diria Frankie. Maggie é patética, no sentido etimológico da palavra, mas Swank faz você admirá-la. Frankie é um homem seco, mas Eastwood dá nuances a um personagem que não encontra respostas fáceis em sua vida. Scrap é o caolho que poderá redimir Frankie, quando Deus tiver fechado os dois olhos ao seu sofrimento. É difícil, mas é bonito. Palavra de quem não gosta de boxe: talvez você saia do filme entendendo melhor os nocautes do Popó.

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