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Era um garoto...

10.01.06

por Daniel Oliveira

Soldado Anônimo

(Jarhead, EUA, 2005)

Dir.: Sam Mendes
Elenco: Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Jamie Foxx, Chris Cooper, Scott Macdonald, Dennis Haysbert

Princípio Ativo:
o vazio da guerra

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O nome do batalhão de Tony Swofford (Jake Gyllenhaal) em “Soldado anônimo” é The suck, traduzido como chatice. É sobre a chatice que o filme fala. Eu lembrei cinco coisas que eram um saco no início dos anos 90, época da primeira guerra do Golfo:

1- O Guns’n’roses dominava o rock.
2- O Nirvana e o grunge começaram a fazer sucesso, o que fez o Kurt Cobain se matar.
3- O pancadão e a dance music invadiam as boates (lembra as fitas K7, do tipo Furacão 2000?)
4- Um tal de Collor era eleito presidente.
5- Um tal de Bush e um tal de Saddam inventavam uma guerra para ver quem dominava o petróleo do golfo pérsico.

Obs.: Trocando Guns por Linkin Park, dance pelo eletrônico/house/drum’n’bass, e Collor por Lula, não parece que está tudo a mesma coisa?

É essa a constatação do protagonista ao afirmar que “ainda estamos no deserto”. “Soldado anônimo”, baseado no livro do Tony Swofford da vida real, é uma comédia constrangedora dos bastidores da guerra do último item acima. Você se sente mal ao rir do fuzileiro brincando de Darth Vader com a máscara anti-gás, ou quando Tony reclama ao escutar Break on Through, do The Doors, porque “isso é música do Vietnã. Nós não podemos ter nossa própria música?”. São jovens sem perspectiva, como o protagonista, Troy (o sempre bom Peter Sarsgaard, de “A chave mestra”) e outros milhares que foram enviados ao deserto para fazer nada.

O vazio da cabeça do título original (cabeça de jarro, referindo-se ao corte de cabelo dos fuzileiros) é o mesmo vazio da rotina sufocante dos batalhões. É o mesmo que se reflete na bela fotografia de Roger Deakins (A vila), que estoura o branco eterno do deserto, tornando-o ainda mais insuportável. É o vazio do olhar perdido de Swofford. E da ausência de qualquer ação bélica, a la “Apocalypse now” ou “Nascido para matar” (referências declaradas do filme). Assim como é vazia qualquer justificativa para a presença de tantos soldados, em uma guerra que, como o filme mostra, foi resolvida nos bombardeios aéreos.

A trilha horrorosa relembra crássicos do início dos anos 90, como Everybody dance now, num ensaio de striptease dos fuzileiros, e trilhas de ação a la Macgyver nos treinamentos, fazendo-nos repensar o preconceito contra os anos 80. A direção sempre cuidadosa de Sam Mendes (Estrada para Perdição) e o roteiro funcionam melhor na primeira metade, em que a comédia predomina, caindo um pouco de rendimento ao final, quando os diálogos ácidos do início dão lugar a discursos desnecessários, frente ao poder das imagens.

O filme mostra em seu vazio o que muitos já sabiam: as guerras dos EUA são desculpas para aquecer a economia em épocas de crise. Elas mobilizam as duas principais indústrias do país – a bélica e, ironicamente, a cinematográfica. Afinal, para cada guerra, são uns quatro ou cinco filmes. Da próxima vez, podia ter só um pouquinho de ação, pelo menos para disfarçar.

Quem disse que homem não masca chiclete e pensa ao mesmo tempo?

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