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Ray Charles não morreu!

30.01.05

por Daniel Oliveira

Ray

(idem, EUA, 2004)

Direção: Taylor Hackford
Elenco: Jamie Foxx, Kerry Washington. Regina King, Clifton Powell, Harry Lennix, Bokeem Woodbine, Aunjanue Ellis.

Princípio Ativo:
Jamie Foxx

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Provavelmente Jamie Foxx criou uma lenda com sua interpretação em “Ray”: depois do filme, assim como Elvis, vão começar a dizer por aí que Ray Charles não morreu. A personificação realizada pelo ator é tão minimalista, tão cheia de detalhes e tecnicamente apurada que assusta. Quase irrita, na verdade. A vitória de Foxx como melhor ator no Oscar é uma bola tão cantada que se ele não ganhar, é capaz de chover canivete.

Esse mesmo minimalismo é também a maior falha do filme do diretor Taylor Hackford (Prova de vida). Assessorado pelo próprio Ray durante a produção do filme, e tendo como produtor executivo o filho do músico, ele conta a biografia de Charles, desde o início de sua carreira como músico de apoio, até o auge do sucesso como um dos inventores da soul music. Ressalta os traumas de uma infância pobre, acentuada pela morte do irmão, as dificuldades devido à cegueira e a coragem e tino comercial para superá-las, seu vício em heroína e seu fraco por mulheres – no plural.

O problema é que a carreira de Charles é tão vasta, com tantos sucessos e episódios, que o cineasta acaba abraçando todos eles, criando um filme excessivamente longo. As transições das cenas para os números musicais são empolgante, a fotografia de Pawel Edelman (O Pianista) é esplendorosa e as atuações são boas, mas é quase impossível não estar extenuado após as duas horas e meia de projeção. Uma enxugada na metragem e um recorte na lista de sucessos apresentados durante o filme talvez não fizesse mal, principalmente com um roteiro que segue à risca o padrão do filme-biográfico-do-sujeito- genial-com-dificuldades-que-supera-seus-obstáculos-e-brilha-no-final.

Perto da paixão e do arrebatamento da música de Charles, porém, isso se torna um defeito menor. Hackford e Foxx conseguem transpor para a película a energia dos hits do músico, mixando as gravações originais com a voz do ator. O filme defende uma tese: o talento de Charles é algo divino. Perceba na cena em que Ray senta ao piano pela primeira vez com Mary Ann Fisher (Aunjanue Ellis), sua primeira backing vocal. A luz que vem do alto, criada por Edelman, é como uma inspiração divina que, ao passar pelas mãos de Charles se transforma no melhor da arte mundana.

De quebra, o filme apresenta com uma direção de arte de primeira a invasão da cultura negra, da soul music e do jazz na cultura pop norte-americana durante a década de 60, ancorada por Charles, Quincy Jones e seus parceiros. Pode-se afirmar que é uma biografia extremamente convencional. Mas eu pago pra ver quem não se balançou na poltrona do cinema ao escutar “Hit the road”. É isso o que importa.

Ray: Inspiração divina para fazer música como o diabo gosta...

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