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Se Todos Fossem Iguais a Você

06.03.06

por Rodrigo Campanella

O Segredo de Brokeback Mountain

(Brokeback Mountain – EUA/2005)

Dir.: Ang Lee
Elenco: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams, Anne Hathaway

Princípio Ativo:
polêmica? bah.

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“Brokeback Mountain” é o tipo de filme especial, fabricado a partir de produtos finos e uma memória cinematográfica inteira rodando na cabeça, nesse caso o faroeste norte-americano e o interior montanhoso ao fundo. Ter essa referência acrescenta algo mas nem de longe é essencial, já que o resultado final é várias vezes maior que a soma simples dos elementos.

Ir a um filme recomendado por opiniões de confiança é sempre arriscado, já que a expectativa só se acumula. Escrever sobre um filme de que se gostou muito é tentar contornar o risco de que o texto não consiga fazer jus ao que foi assistido. Esse texto é resultado dessas duas cordas-bambas.

A idéia inicial era fazer uma série de sinopses que fosse abrindo o filme para muito longe da simplificação ‘o filme dos caubóis veados’. Depois de assistir, a única certeza era que a idéia foi pequena demais para dar conta de comentar ‘Brokeback...’.

Resumir tudo a ‘caubóis gays’ é retirar do filme todo o sumo e jogar no lixo, como qualquer pessoa de boa vontade vai perceber. O que está aqui é um calmo e não calmante panorama do amor e do quanto ele custa, concretizado ou não, seja qual for o motivo.

A história de amor de Jack Twist (Gyllenhaal) e Ennis Del Mar (Ledger, impressionante) começa inesperadamente para os dois durante um trabalho de vaqueiros na montanha Brokeback e se estende pelas décadas à frente, sempre em pequenos encontros no mesmo lugar. (“Tudo que nós construímos é isso, tudo que temos é a velha Brokeback”, diz Gyllenhaal sem soar piegas).

Ao redor desse amor inacessível, nunca aceito por Ennis, se espalha um ciclo de imobilidade que vai atando todos ao redor – ambos, presos à montanha, são maridos e pais ausentes de famílias que só existem teoricamente. Ang Lee filma com paciência e um senso de corte impressionantes a história que se promete sem solução desde o início.

Dificilmente nesse ano se verá atores tão bem filmados dentro de uma tela e exatamente o caráter ‘humano demais’ do filme vai espantar algum público. Num lugar onde não há nada para fazer, coisa bem mostrada em cada enquadramento equipado com trilha sonora à altura, fica mais explícito que o essencial é essa coisa estranha chamada gente, e que gente dói.

Vale lembrar de Closer, ‘filme adulto’ lançado aqui também no início do ano (passado), onde parecia valer uma certa conformação e aceitação de amores sempre incompletos. ‘Brokeback’ gasta película exatamente descosturando a sutura feita no outro filme e deixa novamente a ferida viva, quente e aberta.

A habilidade de Lee para trazer o público para dentro daquela história e vida, usando som, quadros e gente é impressionante. Difícil encontrar um filme onde o amor que se leva para dentro da sessão conta tanto.

Sabe não ter nada pra fazer na vida? Então.

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