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Plantão político

04.03.06

por Daniel Oliveira

Boa noite e boa sorte

(Good night and good luck, EUA, 2005)

Dir.: George Clooney
Elenco: David Strathairn, George Clooney, Patricia Clarkson, Robert Downey Jr., Ray Wise, Frank Langella, Jeff Daniels

Princípio Ativo:
sem amenidades

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Dentre os muitos e rápidos diálogos de “Boa noite e boa sorte”, uma pequena fala de Shirley (Patricia Clarkson) a Joe (Robert Downey Jr.) é a mais indicada para representar o filme. Na verdade, trata-se de apenas uma palavra dita por ela: “Azul”.

Não é porque essa seja a cor do partido democrata nos EUA e o diretor e produtor George Clooney (Doze homens e outro segredo) seja declaradamente anti-republicano. Poderia ser, mas não é. Essa fala de Shriley está encaixada no meio de um longo diálogo sobre política e especulações corporativas. Quando ela interrompe uma frase e diz “azul” abruptamente, você se assusta, tentando entender o que ela quis dizer. E você percebe que ela está indicando qual gravata Joe deveria escolher.

O susto se deve ao fato de que o filme é em preto-e-branco e o espectador, até então, está esquecido de que as roupas, o estúdio e a maquiagem ali são coloridos. Por mais que você esteja vendo em preto-e-branco, existem cores, nuances e camadas ali. É um equívoco e um risco julgar por simples aparências ou pressuposições. É o que pensava o jornalista Edward. R. Murrow (David Strathairn) da CBS, cuja história real é contada pelo ex-astro de ER.

Nos anos 50, Murrow foi um dos únicos combatentes declarados do senador Joseph McCarthy. Junto com a equipe do programa “See it now”, eles denunciaram os meios escusos e o desrespeito aos direitos individuais praticados pelo senador e sua famosa “caça às bruxas comunistas”, nos EUA da época.

Clooney, que também atua no filme como Fred Friendly, diretor do programa, faz uma homenagem a seu pai, que também foi repórter da CBS. Depois de “Confissões de uma mente perigosa”, ele reafirma seu talento atrás das câmeras, construindo um filme objetivo, incisivo e sem concessões. Um dos seus acertos é reproduzir quase com perfeição o ambiente de uma redação jornalística, sem usar trilha musical nessas cenas e deixando as falas caóticas, aceleradas e ininterruptas dos repórteres ritmarem as seqüências.

Outro mérito de Clooney é a escolha de Strathairn como Murrow. O ator, indicado ao Oscar, incorpora o lendário jornalista na postura e na voz e, quando confrontado com gravações reais de McCarthy feitas na época, não se sabe dizer qual dos dois é o mais convincente.

Com isso em mãos, o cineasta entrega um filme que não vai te emocionar como “Brokeback Mountain”; não vai fornecer um espetáculo visual, como “Memórias de uma gueixa”; não vai buscar identificação, como “Munique”; nem vai te pegar pelo estômago, como “Crash”. “Boa noite e boa sorte” é um longa que busca ser quase documental, abordando política de forma densa e realista, sem falar de amenidades. É um filme que bota a cabeça para pensar sério. Outro mérito de Clooney. Está avisado: agora, se você quiser vê-lo ou não, eu me valho do bordão de Murrow para guiá-lo: “boa noite e boa sorte”.

Clooney: pose de gente grande. E Batman com peitinhos, nunca mais.

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