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Jardineiros infiéis

06.02.06

por Daniel Oliveira

Syriana – A indústria do petróleo

(Syriana, EUA, 2005)

Dir.: Stephen Gaghan
Elenco: George Clooney , Matt Damon, Jeffrey Wright, Chris Cooper, Christopher Plummer, Alexander Siddig, Mazhar Munir

Princípio Ativo:
Petróleo

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Para tentar resumir “Syriana – a indústria do petróleo” em poucas linhas, peço ajuda aos versos do sr. Marcelo Falcão:

“e regar as flores do deserto / e regar as flores com chuva de insetos”

“Syriana” narra, de cima a baixo, uma espécie de “jardinagem do mal” que ocorre no Oriente Médio hoje. Acompanhe:

Estão lá os gerentes do jardim, em três categorias básicas: os executivos da indústria do petróleo e seus braços legal e político; os chefões da CIA, que combatem e/ou financiam o terrorismo, de acordo com seus interesses; e a elite política do Oriente Médio, mais interessada em se enriquecer do que em países com qualidade de vida para seu povo.

Logo abaixo, vêm os jardineiros. Eles acreditam regar flores, mas descobrem chuvas de inseto saindo de seus regadores. Aqui, encontram-se George Clooney (Boa noite e boa sorte), como Bob Barnes, experiente agente da CIA abandonado quando uma missão dá errado; Matt Damon, como Bryan Woodman, consultor financeiro que, para fugir da dor da morte do filho, agarra-se a um ideal político materializado no príncipe árabe Nasir Al-Subaai (Alexander Siddig); e Jeffrey Wright (Flores Partidas), o advogado Bennett Holiday, designado por sua firma para fazer uma fusão entre duas empresas de petróleo “parecer” legal.

E, claro, no final, estão as tais flores do deserto, diariamente massacradas. Uma delas é o príncipe progressista Nasir, que sonha com dignidade, liberdade e desenvolvimento para seu país. As outras são Wasim Khan (Mazhar Munir) e seus colegas, imigrantes operários que, sujeitos às mazelas da indústria petrolífera, são atraídos por escolas muçulmanas fundamentalistas.

Stephen Gaghan, roteirista de “Traffic”, escreve e dirige a história com um primor técnico que lembra o longa de Soderbergh, principalmente na fotografia, diferente para cada eixo da trama. Ele desnuda com crueza a corrupção que rege os rumos do Oriente Médio, auxiliado por outros bons atores, como Chris Cooper (Adaptação) e Tim Blake Nelson – um petroleiro que afirma que “corrupção é a razão de nossa vitória”.

O diretor só falha em equilibrar a trama política com os dramas pessoais de seus personagens – algo conseguido com esmero por Fernando Meirelles, em “O jardineiro fiel”. A morte do filho de Bryan; a relação de Bob com seu rebento, Robby; e os problemas de Bennett com seu pai ficam soltos em cenas esparsas no filme, soando como desculpas para o andamento da trama, quando deveriam ser bem mais que isso.

Syriana é o nome da divisão utópica do Oriente Médio, em que todas as etnias tivessem seu Estado e pudessem viver em paz. Uma utopia, assim como a tentativa de Gaghan de contar, com a mesma eficiência, uma trama política tão complexa e dramas pessoais de tantos personagens.

Clooney, teu passado te condena: ladrão que rouba ladrão...

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