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Será que a Glória e a Fátima também cheiram?

29.01.06

por Daniel Oliveira

Carreiras

(Brasil, 2005)

Dir.: Domingos Oliveira
Elenco: Priscila Rozenbaum, Domingos Oliveira, Paulo Carvalho, Jorge Jerônimo dos Santos, Fábio Floretina

Princípio Ativo:
cocaína

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Imagine se a Glória Maria fosse substituída por uma apresentadora mais jovem? E a Fátima Bernardes também? É algo parecido com isso que deve ter passado pela cabeça do diretor Domingos Oliveira (Feminices), ao adaptar o texto “Corpo a corpo”, de Oduvaldo Viana Filho, resultando neste “Carreiras”.

Ana Laura (interpretada pela mulher do diretor, Priscila Rozenbaum) é uma âncora ansiando pelo “telejornal dominical” (para bom entendedor...). Mas ela é preterida por uma jornalista mais jovem – uma “leitora de teleprompter”, segundo Ana – que não consegue nem entrar no ar em sua estréia. Ana Laura é chamada para substituí-la e a idéia de ser o estepe de sua substituta a deixa em parafuso.

“Carreiras” se passa na noite em que ela chega em casa após a substituição, durando até a manhã seguinte. A jornalista fica o tempo todo ao telefone, dizendo cobras e lagartos a todo mundo: aos chefes da emissora, ao namorado, aos colegas, amigos – ao mesmo tempo em que cheira cocaína desesperadamente.

Domingos Oliveira despeja toneladas de humor ácido, escancarando a arrogância enrustida por trás dos penteados perfeitos que apresentam nossos telejornais. A vida de Ana Laura (e de Glória? E Fátima?) não faz sentido sem o prompter à sua frente e um furo de notícia às suas costas – sem a sensação de poder, mesmo que falsa, de controlar e passar informação. E quando ela vê a fragilidade disso, não segura a onda.

Esse “escancaramento” gera uma cena hilária, em que Ana sai às três da manhã para comprar cigarro e, no meio da rua, começa a gritar: “acorda, macacada!”. Ela segue com a gritaria non sense até que alguém atira em sua direção e Ana sai correndo, ao ver que não tem a tela da TV para protegê-la.

Para contar essa egotrip, Domingos usa câmeras digitais, em que a qualidade da imagem é comprometida em alguns momentos e a captação de som é sofrível. Sendo baseado quase que totalmente em diálogos, o filme perde sua força e a atenção de parte do público com as falhas. É a proposta do diretor gaúcho de realização de filmes de baixíssimo orçamento, mas com conteúdo decente, que conquista a uns e irrita outros.

“Carreiras” ganha com a ironia fina, principalmente do final. E também com a ótima interpretação de Rozenbaum, que vai do auge da euforia cocainômana à depressão profunda, sem exageros ou clichês. A mão forte e teatral de Oliveira segura bem momentos cômicos – quando Ana começa a escrever um livro – e drama – na seqüência da praia. Quem dera os telejornais trabalhassem com orçamentos baixíssimos, mas com o sarcasmo e a inteligência de Oliveira e Rozenbaum.

O alter ego da Glória com dois de seus (muitos) vícios

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