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Céu de brigadeiro para Scorsese

01.02.05

por Daniel Oliveira

O Aviador

(The aviator, EUA, 2004)

Direção: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo Dicaprio, Cate Blanchett, John C. Reilly, Alan Alda, Alec Baldwin, Ian Holm, Kate Beckinsale.

Princípio Ativo:
Um psicótico em Hollywood

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Howard Hughes, magnata que habitou Hollywood nas décadas de 30-40, tinha tudo para ser um norte-americano detestável: tendências republicanas, racistas e anticomunistas, além de uma arrogância de quem pensa poder comprar e dominar o mundo com sua fortuna. Ainda bem que sua biografia foi parar nas mãos de Martin Scorsese. O diretor é um dos únicos em atividade capaz de dissecar esse personagem numa profundidade tal que sentimos admiração e pena dele – assim como o Travis Bickle de “Taxi Driver”.

O segredo de “O Aviador” é o interesse de Scorsese pelo que se passa dentro de seus personagens, às vezes mais do que seu entorno. No filme, o roteiro de John Logan usa a paixão de Hughes (Leonardo Dicaprio) pela aviação para ilustrar seu perfeccionismo, ambição e obsessão – essa última patológica, já que ele sofria de Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Não é à toa que uma das melhores seqüências do filme é a materialização do perturbador estado psicológico do protagonista, belamente visualizada pelo cineasta, com o auxílio da editora e parceira constante, Thelma Schoonmaker.

Visto por essa perspectiva, é mais fácil enxergar Hughes como um personagem “scorsesiano”, prato cheio para um diretor especialista em explorar o lado mais obscuro dos neuróticos forjados pela “democracia liberal” norte-americana. A história narra o período em que o protagonista era produtor de cinema e seus casos amorosos em Hollywood – como Katharine Hepburn (a magnífica Cate Blanchett). Ao mesmo tempo, ele comprou a empresa de aviação TWA e peitou o monopólio da Pan Am sobre os vôos internacionais dos EUA.

Auxiliado por grandes atuações e uma direção de arte impecável, Scorsese faz uma homenagem à era de ouro do cinema americano. A câmera do diretor plana pelos cenários grandiosos, assim como os aviões projetados por Hughes. Apesar da longa duração, o filme apresenta a dualidade do personagem, caminhando do seu auge criativo ao inferno de sua doença – dualidade clara em uma cena que Scorsese fotografa Dicaprio em perfil dentro do carro, e o reflexo no vidro revela seu “lado negro”. O cineasta usa o verde durante grande parte do filme e o contrasta com um forte vermelho, quando o transtorno de Hughes ultrapassa o limite e passa a destruir sua vida.

Outro destaque do filme é a trilha de Howard Shore: sem rompantes emotivos, do jazz ao clássico, ela é precisa em cada cena, marcando o ritmo do filme, marca registrada de Scorsese. Dono de uma filmografia invejável, o diretor entrega um filme equilibrado e visualmente impecável. Com isso, o peso do Oscar nunca conseguido invadiu os artigos sobre o filme, tornando-se quase mais importante que a própria obra. Acho que, como Hitchcock e Kubrick, Scorsese deveria ligar o foda-se e repetir incontrolavelmente, assim como o perturbado Hughes: “Oscar de cu é rola”, “Oscar de cu é rola”, “Oscar de cu é rola”...

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