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O amor nos tempos do pop

29.10.04

por Daniel Oliveira

Kill Bill vol. 2

(EUA, 2004)

Dir.: Quentin Tarantino
Elenco: Uma Thurman , David Carradine, Daryl Hannah, Michael Madsen, Lucy Liu. Vivica A. Fox.

Princípio Ativo:
o caso mal resolvido de Q & U

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“É compaixão e misericórdia o que me falta, não racionalidade”. Quando escutamos essas palavras da personagem de Uma Thurman no volume um, não tínhamos idéia da profundidade e do simbolismo que elas possuíam. É por isso que é indispensável assistir ao volume dois. Aliás, é indispensável assistir a Kill Bill – a obra. A dissecação do significado do amor em nossa época, uma ópera em dois momentos, um livro em dez capítulos, uma mitologia; um filme essencial que mostra porque o cinema é uma arte tão única e sublime.

Traição, perda da razão, sofrimento, vingança, redenção. Os cinco pontos que estruturam a mitologia de Tarantino sobre o amor (pós-)moderno. Os cinco pontos vitais, que podem explodir o coração – e levar à morte. O filme é todo permeado pelo número: são cinco personagens a serem mortos pela protagonista. Essa, por sua vez, é cinco em Uma: Piii (seu verdadeiro nome é revelado no volume dois), a assassina Mamba Negra, a Noiva, a Vingadora e a Mãe – as cinco visões do amor feminino, segundo o diretor. Cada volume tem cinco capítulos.

Para realizar sua façanha, Tarantino não precisa mais do que uma bebedeira, uma musa e toneladas de cultura pop. Ao invés das milhares de teses que tentam compreender nossa sociedade olhando para fatos e objetos culturais por demais elitizados, o parceiro de Uma Thurman sabe que a verdadeira mitologia moderna está naqueles produtos que fascinam e atingem o povo. Filmes de kung fu, faroestes spaghetti, Jackass e Superman são as referências que o diretor usa para provar que o amor – pelo poder, por um ideal, por uma mulher, por um homem, por uma família, por uma filha – pode ser a fonte da violência, das reações exageradas, do ciclo de vida e morte que nos cerca.

Complexo ou acadêmico demais? Pop demais? Chama-se Kill Bill, o quarto filme de Quentin Tarantino. Não se trata de um primeiro filme formalista e um segundo verborrágico. É uma obra completa, em que nada é realidade e tudo é simbólico, bem realizado e divertido. Um filme para durar por anos e anos, ser revisto e admirado por várias gerações – mérito de poucos produtos nessa arte.

Ou talvez Kill Bill seja simplesmente a exteriorização do amor mal resolvido entre o cineasta pop e sua musa. Sobre a fascinação dele pelas pernas (e pés) dela. Sobre a gravidez e o que ela fez na vida de Uma Thurman. Talvez seja até mais pop assim. Então, esqueça tudo o que você leu acima e aprecie o filme – e as belas pernas de Thurman – que é o que Tarantino realmente deseja.

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