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O acerto de contas

19.02.06

por Rodrigo Campanella

Johnny Cash – American IV: The Man Comes Around

(Universal Music, 2003)

Top 3: "Hurt”, “The Man Comes Around” e “We’ll Meet Again”.

Princípio Ativo:
Agonia e glória

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O cinema já possui tradição cultivada em voltar aos temas do Velho Oeste americano para um acerto de ponteiros tardio. Sai o mito do caubói civilizado como fundador de uma nação, entra em cena o Oeste como terra da barbárie, da traição e das aparências. “Brokeback Mountain” é apenas o último quarteirão dessa avenida gloriosa na qual estão também “Era uma vez no Oeste” e “Meu ódio será sua herança”.

É no reencontro e questionamento daquele Oeste cultuado geração após geração que Johnny Cash constrói seu American IV: The man comes around. Canção após canção, surge seu acerto de contas definitivo com esse imaginário – e o que aparece é a imagem de um ambiente completamente novo, rico, seco e complexo.

A imagem de Deus e a Bíblia na mão (“The Man Comes Around”, “Personal Jesus”) convivem com a prisão e morte (“I Hung My Head”, “Sam Hall”, “Danny Boy”). A bondade do caubói e a família (a mais do que triste “Give My Love to Rose”) fazem par com a solidão e a dor de manter o mito do homem inquebrável (“I’m so Lonely I Could Cry”, a sensacional “Desperado”).

Na verdade, os elementos se misturam. Não à toa, a primeira faixa (“The Man Comes...”) consegue ser ao mesmo tempo a mais assustadora e mais empolgante, ao combinar uma levada inexplicável de violões e piano a imagens do apocalipse bíblico ditadas por Cash.

The Man Comes Around é o quarto disco da série “American Recordings”, parceria de Cash com o produtor Rick Rubin. A idéia era lançar discos de Cash, misturando covers e originais, para um público de roqueiros e bluseiros dos anos 90 que já não tinha idéia de quem ele era. A verdade é que o público já era dele mesmo sem o conhecer e a idéia acertou na mosca, com o toque de gênio de Rubin: liberdade para Cash, um gravador ligado e nada mais.

American IV é o último lançamento de Cash, já doente, ainda em vida. O sabor de testamento que corre o disco fica coroado com a suave cover de “We’ll Meet Again” no final. A capacidade de Cash de pegar coisas alheias e torná-las completamente pessoais chega a assustar ao se saber que “I Hung my Head” pertencia a Sting e que “Hurt” é o antigo hit do Nine Inch Nails.

Aliás, “Hurt” talvez seja a maior pérola no meio de tantas. As linhas “I hurt myself today/to see if I can feel/I focus on the pain/the only thing that´s real” e o refrão na voz de Cash são algo de outro mundo. Aqui ele condensa seu Oeste complexo e dolorido, numa voz que sempre teve algo de mais triste que a vida. Deus abençoe Rick Rubin pela sabedoria. Deus abençoe Cash, por tudo que ele deixou.

Man in Black posando para foto, dessa vez com o dedo médio comportado

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