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Sintonia Fina

25.03.06

por Rodrigo Campanella

Espíritos – A Morte Está ao Seu Lado

(Shutter - Tailândia/2004)

Dir: Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom
Elenco: Ananda Everingham, Natthaweeranuch Thongmee, Achita Sikamana

Princípio Ativo:
interferências

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Assistir a “Espíritos” é acreditar que existe na Hollywood de hoje um manual para a construção de filmes de terror envolvendo sempre coisas pontudas e o mal como coisa da casa do vizinho, e nunca da própria. Graças a isso, é possível passar por serras elétricas e coisas do gênero sem susto, já sabendo o que esperar. “Espíritos” prega o primeiro susto daí: sendo tailandês, essa regra cai. Os sustos estão lá, mas saber com antecedência “onde” é algo complicado.

Ao mesmo tempo, o tal manual já vazou via www para aspirantes a roteiristas do mundo todo. “Espíritos” vem com pequeno selo “contém clichê” e, sinceramente, se Jane (a namorada do protagonista) descobrisse pela terceira vez algo após derrubar acidentalmente uma pilha de papéis no chão, eu dava tchau para o filme.

O clichê se estende também para pesadelos enganadores e cobertores, mas tudo vai temperado com uma boa banda sonora que faz silêncio e som competirem para ver quem incomoda mais, no bom sentido. Vendo o filme numa sala quase vazia (só imprensa), com total falta de calor e gritos humanos, ficou cheia a impressão de que chão e teto quase não estão nas imagens, deixando o espectador numa boa (má) sensação de ausência de corrimão. É algo a ser confirmado.

Adotando bem a linha do “quanto mais mexe, mais fede”, o fotógrafo Thun (Everingham), acompanhado da namorada, se embrenha no mundo das fotos assombradas para descobrir porque as fotografias dele saem todas alteradas após um acidente, em que ela atropelou alguém e ele mandou seguir em frente. Uma série de incertezas sobre a veracidade ‘mundo real’ das imagens cozinha o medo do espectador a fogo baixo, dando corpo ao tal “temer é acreditar” de A Chave-Mestra.

Golpe de mestre, o letreiro final pede desculpas pelas fotos ‘reais’ com vultos usadas no filme e não creditadas aos donos, garantindo o boca-a-boca depois da sessão. E a verdade é que esse estudo sobre a adrenalina em humanos funciona bem, obrigado, mesmo com uma narrativa e personagens esfarrapados.

A mesma sintonia fina que Thun e Jane adquirem após o atropelamento, o filme parece ter com o mundo atual. O medo do que pode estar dentro das imagens fixas e telas é antigo, da tv de “Poltergeist” (1982) aos índios e o medo de perder a alma para a fotografia. Em tempos de web, onde a medida de ‘real’ e autoria das imagens se perdeu, o medo também foi compartilhado. Com esse trunfo, resta ter a boa vontade do público para a ‘explicação’ final. Pode não dar o encaixe perfeito, mas funciona mais que bem.

É disso pra baixo. Ou você esperava os
Ursinhos Carinhosos?

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