Busca

»»

Cadastro



»» enviar

A américa nos tempos do sonho

12.05.06

por Rodrigo Campanella

O Novo Mundo

(The New World – EUA/2005)

Dir.: Terrence Malick
Elenco: Colin Farrell, Q’Orianka Kilcher, Christian Bale, Christopher Plummer

Princípio Ativo:
tempo tempo tempo tempo

receite essa matéria para um amigo

Acho que quase ninguém mais faz caderno de caligrafia hoje em dia. Havia duas versões: uma em que as letras já vinham desenhadas por baixo e se ‘escrevia’ por cima e outra que era só um caderno comum de pautas grandes onde a pessoa treinava a letra até chegar no ponto. A lembrança é porque, mais do que o filme em si, impressiona a caligrafia própria que o diretor Terrence Malick dá a esse “O Novo Mundo”.

Caligrafia aqui não tem a ver com roteiro, ainda que ele tenha também escrito o filme. O ponto-chave é o modo de Malick escrever cada imagem na película jogando o público no tempo lá dentro e usando a natureza ao redor. No caderno do diretor, a única frase escrita sem parar parece ser “o homem é a loucura”. Isso, escrito numa letra bem torneada e tranqüila dá um tremendo impacto.

“Além da Linha Vermelha”, seu filme anterior, ia bem mais além no sentido de incomodar e fazer pensar sobre esse estranhíssimo bicho humano. No atual, a história de amor e separação entre o marinheiro John Smith e a índia Pocahontas serve para desvendar que a loucura humana não é algo exclusivo da guerra, mas pode caber num sentimento que quebra com tudo ao redor e recria o mundo com um andamento próprio.

Loucura é o modo como o marinheiro e a princesa índia se entregam: ele ao amor, ela a ele. Esse é o tal ‘novo mundo’ que interessa ao diretor, belamente fotografado todo em luz natural. Enquanto colonizadores e nativos brigam ao fundo e atravessam a história do casal, Smith e Pocahontas (re-batizada Rebeca pelos americanos) se unem e desencontram por conta própria. Com roteiro escrito nos anos 70, tanto o romance quanto a nova terra parecem ter algo de um olhar hippie.

A dificuldade do filme não vem do ritmo calmo e poético, mas da frouxidão com que a história é amarrada muitas vezes. Os indígenas repentinamente somem da história, a ligação entre a índia e Smith muitas vezes parece solta demais. Em alguns momentos, é apenas um love story genérico. O tempo histórico merece um cartaz de desaparecido, já que personagens agem e pensam como se vivessem nos anos 90.

Já o elenco foi escolhido a dedo. A estreante Q’Orianka Kilcher (Pocahontas), com 15 anos, tem os traços e trejeitos pelos quais uma câmera de cinema parece ter paixão. A humildade de Christian Bale de sumir dentro de um papel e a dificuldade de Colin Farrell em demonstrar amor por qualquer coisa também estão no lugar mais que certo, assim como a trilha sonora, que sabe o mais importante: a hora de fazer silêncio e deixar o sonho chegar.

"Não se preocupa moço,
aqui não tem cabine telefônica não..."

» leia/escreva comentários (7)