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Morte e vida chicana

05.05.06

por Daniel Oliveira

Três enterros

(The three burials of Melquiades Estrada, EUA/França, 2005)

Dir.: Tommy Lee Jones
Elenco: Tommy Lee Jones, Barry Pepper, Julio Cesar Cedillo, January Jones, Melissa Leo

Princípio Ativo:
Morte e vida

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O tempo de “Três enterros” é o tempo da morte. Seus personagens estão morrendo. Belmont é um xerife morrendo em uma profissão que não tem nenhuma vontade de exercer. Ele é amante de Rachel, uma garçonete que espera a morte do marido, um velho dono da lanchonete. Seus casos extraconjugais são uma tentativa de disfarçar sua morte, mas em determinado momento, ela descobre que não consegue abandoná-la.

Rachel mostra o futuro em uma pequena cena para Ann Lou, que morre em um casamento com um marido que transa enquanto ela assiste à sua desgraça diluída na novela. Mark, o tal esposo, está morrendo sozinho com seu pênis, ignorando a existência das demais pessoas no mundo. É ele quem mata Melquíades, melhor amigo de Pete, vivido por Tommy Lee Jones - também diretor – com uma amargura obstinada, que só seria possível em um faroeste.

É a mistura dessa amargura contida de Jones com o talento do roteirista Guillermo Arriaga para narrar esse ritual da morte que resulta em “Três enterros”. E é um ritual lento e doloroso, como Arriaga já havia mostrado em “21 gramas” – filmado em meia-luz, uma luz de velório, que é o que a viagem de Pete e Mark, para enterrar Melquíades, realmente é.

Jones constrói um Pete que olha à deriva. Ele não enxerga o mesmo que os demais personagens, sabe que vida significa um objetivo. E o dele é cumprir a promessa de enterrar o amigo no México, sua terra natal. Sua obstinação é refletida em um “velho com um rádio”, que eles encontram no caminho – não por acaso, cego. Assim como Melquíades tem certeza de sua vida, o velho tem certeza de sua morte e faz de seu pedido uma das cenas mais emocionantes do longa.

No momento em que, após um telefonema, Pete vê a continuidade da vida se esvaindo, ele vai conversar com o decrépito Melquíades. A decomposição do cadáver ao longo do filme é a mesma dos personagens, encerrados em um lugar no meio do nada – para onde quer que a câmera aponte, parece tudo um grande vazio, assim como a vida daquelas pessoas.

Barry Pepper, um eterno coadjuvante, tem sua grande atuação como Mark. Seu personagem come o pão que o diabo amassou pelo assassinato. Mas no seu calvário, consegue, pela primeira vez na vida, se dar conta da existência da mulher, ao assistir a uma novela em uma cena emocionante e patética.

Arriaga e Jones narram com poesia a morte de seus personagens. E, para quem espera um final clichê, eles preparam um inesperado anti-clímax. Assim como é preciso saber viver, é necessário saber morrer. E é Melquíades que parece ensinar aos demais que, mesmo morrendo, deve-se sempre acreditar em Jimenez.

Sacou o que é uma luz de velório?

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