Busca

»»

Cadastro



»» enviar

O cinema no terapeuta

22.05.06

por Rodrigo Campanella

Caché

(Caché, França/Áustria/Alemanha/Itália, 2005)

Dir.: Michael Haneke
Elenco: Daniel Auteuil, Juliette Binoche, Maurice Bénichou

Princípio Ativo:
vá com calma...

receite essa matéria para um amigo

“O cinema é um campo de batalha: amor, ódio, ação, violência, morte. Numa palavra: emoção!”. É o diretor Samuell Fuller que faz essa definição no meio de uma festa em ‘O Demônio das Onze Horas’, de Godard. Dá para acrescentar: se é emoção, há aquelas vivas que ficam à flor da pele (algo de Fuller), e outras silenciosas que só escapam pelos poros.

Além disso, há os filmes que querem ganhar o espectador pelo tapinha nas costas e os que não querem muito simpatia. Entre os do primeiro tipo, há os que optam por dar conselhos e os que fingem provocar só para deixar no público a impressão de que ali realmente se discutiu algo de relevante (o oscarizado Crash, por exemplo). Há ainda os simpáticos engajados em mostrar a superioridade dos EUA no...Universo (veja o bem-realizado Homens de Preto sob esse olhar e me fale depois).

Existe também aquele amigo incômodo que você insiste em manter, mesmo que ele provoque o tempo todo e fosse mais fácil ignorar. Mas que você não troca, inclusive porque te põe para pensar. Caché é esse amigo, e a emoção aqui é do tipo que não faz barulho, mas pesa.

Georges e Anne (os dois ligados ao mundo literário) começam a receber fitas vhs, embrulhadas em desenhos macabros, que vigiam suas entradas e saídas de casa. Não se sabe quem manda ou a intenção. Fitas e desenhos remetem ao passado de Georges e disso para a paranóia não é preciso nem um passo inteiro.

O diretor Haneke filma como se usasse câmeras de segurança, aquele olhar fixo que não vê em volta. E o próprio cinema vai para o divã: o custo de exibir uma história na tela é esconder todas as que estão em volta no escuro. Nós vigiamos a história contada como se ali, necessariamente, estivesse exibido tudo que se há para saber. O que fica em branco dá para cimentar com paranóia.

Isso é essencial para entender o veneno que vem conforme o suspense da trama vai se desenvolvendo. Não basta existir a imagem, tudo depende do quê se procura nela. É isso que separa tão claramente a chatice da primeira cena da necessidade de encontrar algo na última, mesmo as duas sendo tão parecidas. A paranóia conduz o olho e quando se percebe, já a tomamos como única possibilidade.

Interessante ver esse filme no Brasil, campeão em gastos com segurança pública e cada vez mais inseguro. Talvez a paranóia não seja lá boa conselheira. Mas é muito melhor ver isso através de dois grandes atores (Binoche e Auteuil) que tranqüilamente carregariam o filme nas costas se fosse necessário. Por sorte ainda maior, nem é preciso.

E você pensando que na tela estava vendo tudo...

» leia/escreva comentários (4)