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As promoções bárbaras

30.05.06

por Rodrigo Campanella

Crime Ferpeito

(Crimen Ferpecto, Espanha/Itália, 2005)

Dir.: Alex de La Iglesia
Elenco: Guilhermo Toledo, Mônica Cervera, Luis Varela

Princípio Ativo:
a vida é um shopping ?

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Vivendo num tempo de comédias pré-cozidas, do tipo ‘leve ao microondas e requente as gracinhas’, é divertido entrar numa sala escura e ser surpreendido pelo humor leve e o escracho tranqüilo desse “Crime Ferpeito”. Às vésperas do quarto “Todo Mundo em Pânico” chegar ao Brasil, podemos parar e pensar em que fundo de poço andam as prateleiras de lançamentos em dvd no quesito ‘humor’.

Desde que a indústria americana definiu comédia boa como aquela abertamente babaca (isso funcionando até bem no primeiro “Todo Mundo...”) ou ingênua a ponto de não ver um palmo à frente do nariz (Dizem por aí, para ficar em um exemplo), o cinema praticamente parou de exibir aquele humor amargo, negro e tão saudável. Bom que o mundo não se resume à Califórnia.

Rafael (Guilhermo Toledo, muito bom) é sub-gerente de uma loja de departamentos. Odeia o mundo lá fora e concebe o trabalho como o mundo ideal, dando a perfeita impressão de como deve ser um animal mutante que tem no shopping seu habitat natural. Obcecado pela publicidade e pelo estilão clean do lugar, Rafael vive como consumidor completo.

Consumidor tão bom que não compra, pega emprestado já pensando em descartar e trocar. Toma mulher de um, jornal de outro, e logo de cara pede desculpas ao espectador pela desordem do seu apartamento. “Não me tome pelo que você vê, esse é um lugar temporário”, ele diz olhando para a câmera.

Tudo muda quando, preterido em uma promoção, Rafael mata acidentalmente o homem que ganhou (su)a vaga. A única testemunha é Lourdes, mulher cuja feiúra exterior acaba se mostrando uma versão light de tudo de ruim que carrega por dentro. A interpretação de Mônica Cervera desse bicho ruim em estado puro arranca risos, nervosos.

Ameaçado por ela, Rafael passará de Casanova a cachorrinho amestrado e, mais exatamente, de consumidor a produto. Vai ficando claro que ela na verdade o comprou para marido, e exige pronta entrega.

O diretor De La Iglesia maneja muito bem toda uma dose de memória cinematográfica, do filme-catástrofe ao suspense clássico. Tudo isso condensado em formato pop, com ousadia de câmeras e bons momentos de edição, mas sem cair no virtuosismo chato.

O que não convence muito é o final, depois da boa e inacreditável armadilha bolada por Rafael. A crítica das roupas de palhaço não é nada sutil, mas o que não desce pela garganta é a guinada dos protagonistas, como se fosse necessário ter uma liçãozinha no final. O que só seria o caso se a intenção fosse vender o filme para Hollywood.

Digamos que é uma versão literal para
'a chama do amor'

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