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Valsa com edição de hip hop

15.06.06

por Daniel Oliveira

Vem dançar

(Take the lead, EUA, 2006)

Dir.: Liz Friedlander
Elenco: Antonio Banderas, Rob Brown, Yaya DaCosta, Alfre Woodard, Katya Virshilas

Princípio Ativo:
Um videoclipe quadrado

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Não se pode servir a Deus e ao diabo. Liz Friedlander tenta isso em “Vem dançar” e sofre as conseqüências. Enquanto o roteiro é embalado pela clássica valsa do mestre-com-carinho-que-encara-turma-problemática, a edição hip hop não nega a origem clipeira da diretora.

O ritmo frenético dos cortes inviabiliza um dos pontos fortes do drama escolar – as boas atuações. Já o tradicionalismo da trama faz a montagem rápida e coreografada parecer artificial em alguns momentos. Não que se possa culpar totalmente a cineasta. Como protagonista, Antonio Banderas não é nenhum Sidney Poitier, e não há outro grande destaque no elenco. E as seqüências de dança são muito bem realizadas, apesar de chegar a um ponto em que se tem a impressão de assistir a um videoclipe de uma hora e meia.

Baseado em fatos reais, Pierre Dulaine é o professor de dança que, em um belo dia, decidiu enxergar os delinqüentes das escolas públicas de Nova York como gênios em potencial e se ofereceu para dar aula aos alunos em detenção. O belo dia é belo mesmo, já que nunca fica muito claro o porquê da resolução do professor – o filme assume que o sistema era ruim, Dulaine era bom e quis mudá-lo. Raso assim.

O roteiro segue com os tradicionais percalços - desde a resistência da direção da escola à indiferença dos alunos. O maniqueísmo, principalmente na superficialidade do ”núcleo adulto”, é um dos grandes problemas do longa - tanto na ausência de um background para Dulaine, quanto na diretora Augustine e no professor de matemática Joe, nêmesis forçados, sarcásticos e incrédulos do protagonista.

O “núcleo jovem” funciona bem melhor. “Vem dançar” acerta ao não colocar astros entre os alunos. Até a historinha de “Romeu e Julieta”, apesar de batida, funciona porque os atores convencem como seus personagens – com destaque para Yaya DaCosta, uma espécie de Beyoncé de 16 anos. E o “espírito videoclipe” da direção de Friedlander cria uma ambientação adolescente que flui bem nas cenas.

É essa “qualidade adolescente”/“defeito adulto” que constituem “Vem dançar”. O filme toca muito superficialmente na questão de que Dulaine tenta “impor” um estilo de dança elitista aos alunos, encarando de cima o hip hop deles. Na cena final, porém, todos dançam juntos, ignorando solenemente que possa existir qualquer crash na sociedade norte-americana. Equilibrado isso ao ritmo coreografado, “Vem dançar” nunca explode, mas também não é vergonhoso e deve fazer uma carreira longa na Sessão da Tarde. Só faltou um hit a la “(I’ve had) The time of my life” para grudar para sempre o filme na cabeça do espectador.

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