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A arte engole a vida

09.07.06

por Daniel Oliveira

O libertino

(The libertine, Reino Unido, 2005)

Dir.: Laurence Dunmore
Elenco: Johnny Depp, Samantha Morton, John Malkovich, Kelly O’Reilly, Rosamund Pike, Rupert Friend, Richard Coyle

Princípio Ativo:
Depp & Cia.

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“Você me considera um cínico?”
“Eu acho que você aparenta gostar da vida muito mais do que realmente gosta.”
“E isso me faz um cínico?”


É basicamente essa a idéia de uma conversa que John Wilmot (Depp) tem com sua prostituta e amiga Jane (Kelly O’Reilly, de “Sra. Henderson apresenta” e “Bonecas russas”). É um dos (vários) diálogos que buscam desvendar a persona do título. E apesar dessa “investigação”, o estreante Laurence Dunmore demonstra maturidade, ao não apresentar respostas definitivas, conclusões ou finais arrebatadores.

“O libertino” é a história do poeta, dramaturgo, nobre e boêmio John Wilmot, personagem real da Inglaterra do século XVII. Era casado com Elizabeth Malet, cliente da citada Jane, amante de Billy Downs e fascinado por Elizabeth Barry (a sempre ótima Samantha Morton). Celebremente conhecido como Conde de Rochester, essa multiplicidade vira um show de atuação do naturalmente multifacetado Johnny Depp.

O roteiro narra o retorno de Wilmot para Londres, após ser banido pelo rei Charles II (John Malkovich). Só que a Londres do filme não é o clichê de filmes de época, com luzes diáfanas e belos palácios: é um antro de lama e velhacaria, a fotografia é suja e a câmera inquieta torna a neblina sufocante. É para escapar dessa realidade deprimente que o protagonista se refugia no teatro. Ao encontrar o talento não-lapidado de Elizabeth Barry e ajudá-la após uma rejeição do público, ele afirma “eu quero ser comovido. Não consigo sentir nada na vida. Preciso que outros o façam por mim no teatro”.

Wilmot enxerga sem lentes a deterioração da corte inglesa, a sujeira da cidade, a decadência criativa de seus colegas escritores e a hipocrisia do seu “amigo” rei Charles. Sabe que as únicas coisas que o fazem sentir algo na realidade são o sexo e a bebida – e se entrega inconsequentemente às duas. É esse desencanto que resulta na chocante (e pornográfica) peça que ele apresenta quando o rei lhe pede um “retrato da corte inglesa”, para conseguir ajuda financeira de um visitante francês.

Adaptado de uma peça, “O libertino” é cheio de diálogos rápidos e complexos, mas está longe de ser teatral. Quando Depp e Morton se confrontam nos ensaios, a câmera pulsa junto com a forte interpretação da dupla e quanto mais tensa fica a situação, mais ela se movimenta e mais impossível fica para o espectador não se envolver com a cena.

Pode-se até concordar com o prólogo de Wilmot, que afirma que não gostaríamos dele ao final. Mas é difícil não se identificar com o seu desencanto com a vida e com a tentativa mortalmente desesperada de transformá-la em arte. Talvez seja por isso que não gostemos.

“Muitos anos como o capitão Jack Sparrow...e eu acabei assim!”

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