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Urubu ao molho de pimenta

18.07.06

por Rodrigo Ortega

Primal Scream - Riot City Blues

(SonyBMG, 2006)

Top 3: "Dolls (Sweet Rock'n Roll)", "Country Girl", "Sometimes I Feel So Lonely".

Princípio Ativo:
U-hu

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O mocinho vê a mocinha de longe, nos braços de outro. Mesmo assim, ele fica apaixonado, guarda a lembrança da menina e faz de sua busca um dos maiores sucessos do pop britânico atual. O protagonista desta história em 2005 foi James Blunt, com “You're beautiful”. Agora é a vez do escocês Bobby Gillespie, líder do Primal Scream, apresentar sua versão mauzona do amor platônico em “Dolls (Sweet Rock and Roll)”, melhor faixa do novo e barulhento Riot City Blues.

O “I saw an angel of that I'm sure” de Blunt vira “I saw you looking really evil, spitting fire from your eyes” na sacolejante “Dolls”, com vocais da Alison Mosshart, do The Kills, que também cantou no novo disco do Placebo. O Primal Scream dispensa a parafernália eletrônica dos anteriores Xtrmntr (2000) e Evil Heat (2002) e abraça os clichês dos trios baixo-guitarra-e-bateria e sexo-drogas-e-rock'n roll. Riot City Blues vai entrar tanto nas pistas de rock quanto na lista de acusações de que a banda só sabe fazer pose e imitar ícones musicais.

O início de Riot City Blues é destruidor, com o primeiro single "Country Girl", a dupla explosiva "Nitty Gritty" e "Suicide Sally and Johnny Guitar", e "When the bomb drops", que tem participação do guitarrista Will Sergeant, do Echo and the Bunnymen. Kevin Shields, ex-My Bloody Valentine, que tocou no Primal Scream no início desta década, só agora vê crescer a sementinha guitarreira que plantou no grupo.

Mas a viagem de Bobby não para nos anos 80. O trio de instrumentos roqueiros às vezes ganha a companhia de instrumentos ainda mais retrô. "Country Girl" tem solo de bandolim; teclados à Doors dão o clima de "Little Death"; gaitas passeiam por "The 99th Floor" e "We're Gonna Boogie". Uma medida de como a viagem pode soar forçada está em um verso de "Dolls": "God bless the soul of sweet Gene Vincent, there you were". Enfiar na letra o nome do roqueiro dos anos 50 parece artificial como um costureiro de nariz empinado copiar peças de brechó.

Ainda assim, o Mick Jagger de plástico pode ser quase tão divertido quanto aquele de carne e osso, e até melhor do que este de osso. A já citada "Dolls", segundo single, e a última faixa, "Sometimes I feel so lonely", redimem os excessos anteriores. "Sometimes" é uma lamentação em clima gospel que lembra "Tender", do Blur. Riot City Blues deve ser renegado como os últimos discos da banda de Damon Albarn e Graham Coxon. Mas lá e aqui podemos achar bons motivos para gritar "u-hu!".

O barulho das guitarras é proporcional à pose

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