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O exercício das coisas

20.07.06

por Rodrigo Campanella

A Grande Viagem

(Le Grand Voyage, França/Marrocos, 2004)

Dir: Ismaël Ferroukhi
Elenco: Nicolas Cazalé, Mohamed Majd, Jacky Nercessian, Kamel Belghazi

Princípio Ativo:
simplicidade na veia

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A coisa do exercício. Decidir se são as grandes ou pequenas coisas que valem mais tem jeito de discussão interminável, que se estende por mesas de boteco e conversas de messenger pela vida toda. A questão é que coisas menores, filmadas com o devido carinho e respeito, podem render grandes dividendos no meio de um rolo de película.

“A Grande Viagem” tem uma saudável e corada cara de exercício cinematográfico. Por trás da tela há um diretor subindo degraus em seu ofício, testando o limite da narrativa e do que a montagem dá conta de entregar para o público. Ismaël Ferroukhi vem de carreira na tv, e o sabor de novidade que o cinema parece ter para ele é algo que chega inteiro para quem assiste.

Se boa parte dos filmes parece correr atrás do próprio fôlego, sem conseguir achar em 95% das vezes, “A Grande Viagem” respira fundo e cadenciado para contar a história de Reda. Estudante francês com descendência islâmica, ele se vê obrigado, às vésperas dos exames de admissão, a ser chofer do pai numa viagem à Meca.

Os dois, claro, não se dão nada bem, e você já viu essa história duas centenas de vezes. Mas impressiona como, de bate-pronto, a primeira cena entre Reda e o pai estabelece com profundidade a relação entre os dois e define o moleque mimado que é Reda.

As pequenas coisas. É dessas pequenas situações que o filme vai compor seu mosaico, atravessando uma relação paterna enquanto cruza a Europa e o mundo islâmico. O pai faz questão da viagem de carro ao invés de tomar um avião pela importância que a travessia tem na peregrinação, e o road movie transformador aqui soa mais crível que o usual. Milhares de quilômetros não vão trazer transformações milagrosas, mas doloridas mudanças em gotas.

Quando Reda e o pai conversam pela primeira vez, é palpável no ar a sensação de que um quebra-pau entre os dois atores já renderia um bom filme. O diretor prefere levar a relação num banho-maria quase fervendo, e o que se perde em tensão acaba rendendo em afeto. “A Grande Viagem” é o tipo de filme que deixa o peito mais morno e faz falta quando chega ao final.

Nicolas Cazalé (Reda), lembra muito Romain Duris, que se especializou recentemente em ser um turista-em-transformação (Albergue Espanhol, Exílios, Bonecas Russas), mas aqui nem o personagem nem os outros povos que cruzam a tela parecem ter vindo de uma versão cult do National Geographic. É difícil definir quem é o estrangeiro, porque a câmera não busca o exótico. De um e outro lado, o que há são pessoas, ricamente variadas. Essa simplicidade basta.

"Ok pai, mas da próxima vez a gente vai é pro Brasil..."

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